ARTIGO
Terça-feira, 22 de Maio de 2012, 20h:52
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Um jornalista substantivo
Por conta da morte de Tinoco, no artigo anterior, prestei homenagem aos violeiros do Brasil. Tal motivação adveio de outra homenagem, a que o Globo Rural (13/05) fez àquele cantor. A reportagem absolutamente literária foi do premiadíssimo jornalista José Hamilton Ribeiro (JHR). Outros trabalhos seus já haviam me chamado a atenção. Contudo, sobressaiu o acima referido; e sobressaiu por conta de uma simbiose naquela reportagem, ou seja, da associação ou entendimento íntimo entre dois seres vivos que vivem em comum. No caso, ambos cantor e jornalista nasceram em rincões de SP. Pois bem! Ao jornalista, viver e/ou conhecer a matéria a ser explorada num texto, num vídeo, num áudio, precede(m) aos recursos tecnológicos. Essa vivência e/ou o conhecimento adquirido daquilo de se propõe a falar faz(em) o diferencial na profissão. É isso que encanta o leitor, o espectador, o ouvinte. Para o jornalista, assim como para outros profissionais, como, p. ex., o médico e o professor, a vivência e/ou o saber adquirido transmite(m) acima de tudo confiança; infelizmente, mais um bem que vamos perdendo. No foco em pauta, sobre a vivência de JHR para (e)laborar a matéria sobre Tinoco foi-lhe determinante conhecer a genuína música sertaneja. Longe da cínica neutralidade do jornalista, aquela vivência lhe deu o conhecimento, a sobriedade e, ao mesmo tempo, a sensibilidade para realizar um trabalho substancioso, que dispensaria adjetivos, não fosse minha paixão pelos qualificadores dos nomes. Fascinado pelo delicado desempenho jornalístico de JHR, procurei me atualizar sobre suas atividades. Do farto material encontrado, destaco o trabalho JHR: o príncipe dos repórteres, realizado por acadêmicos de Comunicação de Vitória-ES, em 2008. Ali, são entrevistados profissionais da área e de outras atividades, além do próprio JHR, hoje, com 77 anos. Só isso já o faz ser o jornalista mais experiente em plena atividade. Assim, de seu depoimento, começo destacando justamente o que dissera sobre sua idade e seu tempo de trabalho: velhice não é de gabar em profissão nenhuma; o que é lastimável. Em países cultivadores do respeito, a velhice é algo que se reverencia. Sobre o repórter em si, JHR disse que esse profissional precisa viver aprendendo todos os dias. Como é dono de um texto sempre profundo, científico, mas recheado de arte, ele literalmente nos presenteia com uma fórmula feita por brincadeira para a realização de uma Grande Reportagem (GR). Como é difícil de transcrevê-la, por se parecer com uma equação matemática, vou descrevê-la: antes de tudo, caro leitor, imagine uma linha. Acima dessa linha, devem-se ter o BC (Bom Começo) + BF (Bom Final). Logo, o leitor deve ser fisgado já no primeiro parágrafo. Este precisa segurá-lo até o final do texto, que por sua vez deve deixar no leitor a sensação de querer mais. Para isso, de sua formula, é importante saber o que está abaixo da linha: T x T; ou seja: Trabalho multiplicado ao Talento, que é elevado à potência n. Nesta, deve caber a medida exata de trabalho e de talento que o texto solicitar. Como também é escritor, JHR que dentre outros, publicou o livro Jornalistas, 37/97, tratando da imprensa ao longo dos 60 anos de existência do Sindicato dos Jornalistas de SP disse que três coisas o incomodam: crianças e cachorros abandonados e livro ruim. Para ele, mais de 90% dos livros de uma livraria qualquer não precisariam ser escritos. Perfeito. Bem que os produtivistas das universidades poderiam aprender isso! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. Em Jornalismo/USP e prof. De Literatura/UFMT