ARTIGO
Sexta-feira, 28 de Março de 2008, 21h:34
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JULIANA SESANA
Um exemplo para o Brasil
No final de 2007 visitei diversas fazendas de produção de gado de corte na Austrália, com apoio do Department of Primary Industries and Fisheries. O roteiro incluiu o Estado de Queensland, onde se concentra a maioria do gado de corte do país. Um dos contatos foi com Sarah Strachan, da Meat and Livestock Australia Limited (MLA), empresa sem fins lucrativos que presta serviços a produtores, exportadores, supermercados, varejistas e até restaurantes. Com 43 mil produtores associados, sua missão é oferecer serviços e parcerias entre a iniciativa privada e o governo, voltadas à melhoria do acesso das carnes vermelha, bovina, caprina e ovina a diferentes mercados, além de proporcionar vantagens competitivas à cadeia produtiva da carne australiana. O MLA é financiado por parcelas pagas pelos pecuaristas sobre todas as vendas de animais e pelo governo. Esta é uma das grandes diferenças entre o Brasil e Austrália. O MLA consegue ser extremamente agressivo, e age em todos os segmentos, principalmente no marketing da carne. No Brasil, temos boas iniciativas nesse sentido, mas são dispersas e sofrem pela falta de investimentos. Além disso, a cadeia brasileira não lhes dá a devida importância, ao contrário da Austrália. Esse esforço australiano é um dos fatores responsáveis para que o país consiga exportar cerca de 65% de toda a sua produção. Outro ponto é a rastreabilidade. O Sistema Nacional de Identificação Pecuária foi introduzido recentemente no país, mas sempre foi obrigatório. Hoje, todo o rebanho é equipado por identificação eletrônica e registrado em uma base nacional de dados. Também é obrigatória a identificação eletrônica (o chip custa A$3/animal, fora o scanner, mas é simples e sem burocracia). Todos os movimentos do gado de uma propriedade para outra são informados ao banco de dados nacional. As propriedades são de mão-de-obra familiar, principalmente pela dificuldade de encontrar funcionários qualificados. Além disso, a mão-de-obra representa expressiva parcela dos custos de produção. Um campeiro, por exemplo, recebe em torno de 130 dólares australianos por dia ou mesmo 20 dólares australianos/hora trabalhada. São mantidos na fazenda apenas os animais que proporcionam maior retorno econômico. A premissa é ter retornos de 15 a 20% ao ano sobre o capital com a produção. Uma das tecnologias empregadas com sucesso na Austrália é a seleção assistida de animais por marcadores moleculares. O mais importante mercado é o Japão e a maioria do gado destinado àquele país precisa ser terminado em confinamento. Como são poucos os produtores que possuem confinamento com capacidade suficiente, muitos animais são enviados a instalações alugadas ou boitéis. Para melhorar a eficiência e a lucratividade, são realizados nas fazendas testes de marcadores moleculares para diversas características em lotes destinados ao abate e somente são enviados para esses confinamentos os melhores animais, principalmente os que possuem características de rendimento de carcaça e marmoreio. Segundo os produtores, isso traz bom retorno econômico, pois chegam a receber cerca de 3,60 dólares australianos/quilo de carne de animais de 0 a 2 dentes, com 320 a 340 quilos de carcaça e de 7 a 22 mm de cobertura de gordura (mais ou menos 100 dias de confinamento) do mercado japonês. Somente uma pequena parcela dos animais atinge essa classificação. Por isso, há pré-escolha com ajuda dos marcadores. Em animais para abates o retorno gira de 15 a 30%. A Austrália pode ser um bom exemplo para o Brasil em termos de procedimentos para atender ao mercado internacional. É o caso da rastreabilidade. É o caso da criação com os olhos voltados para as necessidades dos clientes. O mundo precisa da carne brasileira, mas essa carne precisa estar enquadrada nos parâmetros desejados pelos importadores. * JULIANA SESANA é zootecnista