ROBERTO B. DA SILVA SÁ
Quem não conhece a chata cantilena da brincadeira infantil "um elefante incomoda muita gente... dois, três, mil elefantes incomodam muito mais..."? Pois bem. No início dos anos 90, o ex-presidente Collor de Mello lançou o Programa Nacional de Desestatização, por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O símbolo visual da campanha daquele programa era um elefante fotografado de costas para a câmera. Resultado: na cara do leitor, a enorme bunda do bicho ocupava mais da metade de uma página de revista e/ou jornal. O enunciado verbal da propaganda - "Um Estado pesado incomoda muita gente" - valia-se da mencionada cantilena infantil. O objetivo do programa governamental era convencer todo mundo de que a privatização de empresas e serviços do Estado seria a saída para todos os males. Para mostrar que isso era moderno, não faltavam condenações aos modelos de sociedades socialistas, com destaque à antiga URSS e Cuba, invariavelmente, vistas como atrasadas. Na tentativa da persuasão, sob as patas do "pesado" elefante brasileiro, encontrava-se um texto de sete parágrafos. Ali, podia-se ler, dentre outras, o seguinte: "Por muito tempo o Estado foi engordando sua participação na economia... Sob o comando da iniciativa privada, terão (as empresas do Estado) condições de se recuperar, melhorando seu desempenho, criando novas perspectivas para os trabalhadores". Com o passar dos anos, isso foi se mostrando um engodo. Tudo aquilo era, tão-somente, resposta às determinações internacionais do neoliberalismo, versão atualizada do velho capitalismo. Em suma, do pensamento neoliberal, um de seus pilares - apenas teoricamente - é a liberdade do mercado; em outras palavras, prega-se a participação mínima do Estado nas economias globalizadas. Porém, na prática, o que se vê é oposto em tempos de crise. Se os neoliberais tivessem escrúpulos jamais aceitariam socorro do Estado; afinal, são eles que pregam e impõem, aos outros, "eficiência" e "competitividade". No Brasil, a farsa neoliberal foi exposta por várias vezes. Basta lembrar do governo injetando dinheiro público em empresas então privatizadas, como a Varig e a Vasp. Bancos também já lesaram o erário, sob o disfarce de falência. Volta e meia, está lá o BNDES socorrendo empresas privadas; sem falar nos financiamentos ditos "legais". É farra com o dinheiro público para capitalista nenhum botar defeito! Mas farra mesmo se deu nos EUA, hoje, centro do sistema capitalista. O touro de bronze (símbolo da força do mercado) de New York levou um tombo de fazer pena. Sua queda fez o governo subtrair do erário quase 1 trilhão de dólares para salvar o sistema; protelou sua morte, mais do que anunciada. Depois da quebradeira de 1929, não se tinha visto nada parecido. O capitalismo foi estremecido na base; ela está cheia de rachaduras. A mídia capitalista encontra-se perplexa. No Brasil, a Revista Veja - defensora nº 01 do capitalismo - não sabia como esconder o tamanho da tragédia, mas tentou. Na edição da semana anterior (nº 2078) não fez mais do que dizer que, apesar de tudo, por aqui há "blindagens para enfrentar as turbulências externas". Não detalhou nada da tragédia econômica internacional. Apenas fez menção genérica. Iludiu seu leitor, mais uma vez! Na edição desta semana (2079) não foi possível esconder tanto. Falou dos fatos, mas de forma tão metafórica e tão fora do real que muitos leitores não entenderão que foram, de novo, ludibriados. O ludíbrio começou pela capa. Lá, o Tio Sam (símbolo dos EUA) diz: "Eu salvei você". Salvou nada. No limite, protelou alguma coisa, apenas. Veja - preocupada com eventuais perturbações nas mentes pró-capital que ela própria ajuda a formatar - finaliza sua matéria dizendo que "... essa gente forjada no olho do furacão capitalista não pia fino com qualquer galo e costuma se levantar, crise após crise, com um garbo feito em mármore, duro e frio..." Será? Encerro este artigo lembrando o velho e sábio pensador Marx, ou seja, o que melhor compreendeu e explicou o funcionamento do sistema capitalista. Para Marx, mais cedo ou mais tarde, "tudo que é sólido se desmancha no ar". Quem viver verá! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura/UFMT
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