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ARTIGO
Quinta-feira, 05 de Julho de 2007, 19h:49

ONOFRE RIBEIRO

Um ano depois de Dante

A história política recente de Mato Grosso não pode ser contada sem Dante de Oliveira. Até 2002 teve uma carreira brilhante, com uma única derrota, para vereador em 1976. Nos conhecemos em 1979, ele deputado estadual em primeiro mandato, e eu responsável pelo Jornalismo na TV Centro América. Começamos ali nossas discordâncias. Sem polêmicas maiores, mas em posições opostas em muitos temas. Acompanhei-o, mais pela força da vizinhança no noticiário e no jornalismo, do que pelas nossas convergências ou divergências. Contudo, comigo Dante sempre foi um cavalheiro, mesmo nos momentos em que divergimos severamente. Nossa proximidade deu-se pelo artigo “Mato Grosso sem planejamento”, escrito em fevereiro de 1997, já no segundo para o terceiro ano de seu primeiro governo. Ele telefonou-me e perguntou-me se tinha o Plano de Metas do governo. Ele insistiu em mandar um à minha casa imediatamente. Na outra semana ele telefonou-me e perguntou se tinha compromisso para o almoço. Respondi que não e almoçamos juntos na residência oficial dos governadores. Ele suspendeu os telefonemas e as interrupções, e conversamos das 13 às 16 horas. Estava muito preocupado com a sua agenda, e ele ali, falando, falando, falando. Era uma conversa agradável. Ao final, percebi que ele precisava de alguém com quem pensasse em voz alta. Isso durou alguns anos. Em 2002, não estive diretamente em sua campanha ao Senado. Ele não se elegeu, mas nossos contatos se mantiveram. Eram longas e agradáveis conversas, com vinho e sem vinho. Aliás, Dante era bom bebedor de vinho. Gostava particularmente dos australianos e dos argentinos de Mendoza. Longas conversas, longas confabulações. Em dezembro de 2005, tivemos em seu apartamento numa longa e última conversa, junto com a esposa Thelma e mais alguns amigos. Marcamos uma nova conversa que nunca se realizou. De Dante lembro-me algumas coisas em particular. Primeiro, o espírito de ver as coisas sempre pelo lado bom. Era um otimista permanente. Segundo, não era vingativo. Terceiro, confiava e confiava mesmo. Quarto, era um grande amigo. E foi como amigo que nos despedimos sem nos falarmos, num aceno dentro dos nossos carros, e um grito bem ao estilo dele: “Graaande Onofre”, no cruzamento da Rua Estevão de Mendonça com a Av. Isaac Povoas. No dia 6 de julho, cheguei de viagem à noite e li no site 24horasnews a manchete dolorosa: “Morreu Dante de Oliveira”. Senti como que a perda de um filho, embora fôssemos quase contemporâneos. A política de Mato Grosso perdeu o único político capaz de dar-lhe o ingrediente de questionamentos. O seu PSDB perdeu forças gradualmente. Os demais partidos não se sentem com disposição de luta ou de ordenamento ideológico, por falta de líderes com poder de arregimentação, ou por puro desinteresse público. É preciso recordar que Dante vinha de uma carreira iniciada lá atrás na vida estudantil e na oposição ao regime militar em diversas fases. Isso dava-lhe a carga ideológica e a formação partidária. Não está mais entre nós, mas é uma presença que não morreu. E tende a reviver como memória digna de reverência. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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