ARTIGO
Sábado, 22 de Maio de 2010, 14h:44
A
A
PAULO LEITE
Tributo aos pés
Futebol é a arte do improvável, do drible desconcertante e do improviso insofismável. Malabarismo puro. Desenho assimétrico que se faz com o corpo, desrespeitando regras e convenções. É a geometria do gracejo, a matemática do absurdo. É a oratória de quem sabe falar com os pés. Da mais simples pelada de rua aos milionários jogos internacionais, o velho esporte bretão propõe puro deleite aos seus espectadores. Ninguém fica indiferente a uma finta ou a uma firula. Irmãos se dividem em torcidas rivais, namorados se repelem na hora fatal da disputa. Durante a contenda, flamenguistas e botafoguenses não se confraternizam. Não há menor hipótese de corintianos e palmeirenses trocarem gentilezas após o apito do juiz. Todos têm olhos para ela. Um símbolo rotundo de majestade aninhado no centro do gramado. Esférica e impassível, desejada por muitos, a bola se apresenta aos jogadores como uma amante prestes ao coito; quem melhor a trata, quem mais lhe acarinha, obtém dela as mais delirantes fantasias. Futebol é magia, é a inocência pueril das embaixadas, é a sofisticação marota do chapeuzinho, é a irreverência do passe de letra e é, no orgasmo coletivo dos apaixonados, o êxtase do gol. Futebol é tudo isso que a Seleção Brasileira acaba de renunciar em troca da raiva, do dever, do patriotismo e do compromisso. Trocamos a arte pela burocracia, substituímos a alegria pela disciplina. Escalamos operários e deixamos os menestréis de fora. Tudo isso porque Dunga não gosta de futebol, ele gosta de competição. Ele não admira a beleza, ele só respeita a conquista. O futebol brasileiro é amado por todos os povos por tudo aquilo que nosso técnico mais abomina: o espetáculo. Para Dunga, o drible é uma aberração. Ele quer ver combate, sangue e comprometimento. No seu ideário futebolístico, jogo bonito é perda de tempo. Seu time tem espaço para atletas esforçados e medianos como Júlio Batista, Kleberson e Josué; mas nele não cabe o talento de Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Neymar. Aliás, Dunga tem aversão ao drible, talvez porque tenha sido vítima, quando jogava, da ousadia dos atacantes habilidosos. Como não posso opinar na escalação da seleção brasileira, como não tenho o direito de vetar nenhum jogador e muito menos de protestar, porque a autoridade do técnico do escrete nacional é incontestável, superior a qualquer tribunal ou entidade, só me resta um remédio: torcer contra o time de Dunga. Sim... Vou torcer contra a equipe de Dunga, porque não reconheço em seus convocados a seleção brasileira. O verdadeiro time do Brasil é ousado, criativo e talentoso. Joga no ataque e não retranca. O verdadeiro time brasileiro é alegre, vibrante e ofensivo. Joga pra frente e não se resume a um grupo de volantes marcadores. Vou torcer contra o time de Dunga, e que Deus me perdoe, mas sou capaz até de torcer pela seleção que joga bonito..., a Argentina. * PAULO LEITE é jornalista e escritor