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ARTIGO
Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010, 01h:21

* PAULO LEITE

Tributo a Zilda Arns

“Escrever não alivia a dor, apenas esvazia a alma de suas angústias.” Aos heróis não se é permitido o repouso ou a tranqüilidade das mortes cândidas; a eles se reservam as tragédias e os dramas que reafirmam seus feitos. Os heróis fenecem diante das tormentas e dos eventos extraordinários, transformando a dor em eloqüentes lições de vida. Foi assim com a médica brasileira Zilda Arns, apóstola da Pastoral da Criança que desapareceu no terremoto que dizimou a cidade de Porto Príncipe, no Haiti. Zilda morreu evangelizando, solapada pela sorte que a atraiu para um país agonizante, uma região com profundas chagas socais e uma falha geológica capaz de devastar toda uma nação. O destino colocou essa missionária da solidariedade no epicentro do maior cataclismo da história das Américas. Zilda foi ao Haiti para tentar salvar crianças da miséria e da desnutrição, e lá, como heroína, entregou a própria vida ao apostolado que defendia há muitos anos. Zilda sucumbiu diante do tremor de terra, mas sua missão se fortalece com o seu sacrifício. Não se há de chorar a sua morte; mas sim, de se propagar o sorriso franco que era o emblema de seu trabalho. Não se há de lamentar seu falecimento; mas sim refazer os passos de sua jornada. Não se há de esmorecer diante do imponderável; mas sim reatar os laços de fé que sua caminhada entre nós proporcionou. A Pastoral da Criança criada por ela na década de 1980, converteu-se em bálsamo de alívio e esperança para milhares de famílias carentes em várias partes do planeta. Atualmente, apenas em nosso país, 260 mil voluntários atendem quase dois milhões de crianças em 85% dos municípios brasileiros. Reconhecidas internacionalmente, as ações da Pastoral da Criança estão associadas diretamente à redução dos índices de mortalidade infantil. Os voluntários preparam o pré-natal e acompanham o desenvolvimento das crianças nos primeiros anos de vida. Segundo estatísticas do próprio Ministério da Saúde, onde o braço do voluntariado alcança o número de mortes é de apenas 11 para 1.000 nascidos vivos, enquanto em outras regiões o índice dobra. Pelos resultados de seu trabalho, Zilda Arns foi indicada duas vezes para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. O grande inspirador da pediatra catarinense foi o seu irmão mais velho, dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, que reagiu à notícia da tragédia com o comedimento e o equilíbrio próprio dos sábios. “Que morte gloriosa”, disse ele com altivez. Dom Paulo resumiu o sentimento das pessoas ligadas a Zilda Arns. Tristeza sim, desespero não. Dor sim, revolta jamais... Zilda escolheu o seu caminho e o destino providenciou não seu simples passamento, mas sim a consagração de sua luta. Ela morreu defendendo seus ideais, evangelizando para a causa da inclusão social, e no templo de sua fé. Diante da tragédia que se abateu sobre o Haiti, a morte de uma só pessoa parece insignificante; mas no caso da médica Zilda Arns se perdeu um ícone da resistência contra a degradação humana, uma militante da solidariedade, uma ativista da justiça social e uma dama do inconformismo contra a opressão aos pobres. Zilda Arns se foi. Mas a Pastoral da Criança ganhou um símbolo de confiança e amor... * PAULO LEITE é jornalista e escritor

Edição EDIÇÃO 16968




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