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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Quarta-feira, 20 de Abril de 2011, 20h:43

ALECY ALVES

Tour na favela

Nos meus quase 50 anos de vida, pouquíssimas coisas me impressionaram tanto quanto o tour que fiz dias atrás na favela do morro de Santa Marta, no Rio de Janeiro. Foram quase três horas de passeio num sobe e desce interminável por vielas tão estreitas que tornam impossível o trânsito de duas pessoas lado a lado ou em sentidos opostos. Nesse tempo, nada de medo ou preocupação com a violência. Senti-me segura, bem mais que caminhando pelos calçadões de Copacabana ou dentro de minha própria casa, em Cuiabá, onde há pouco mais de um mês eu e minha família fomos surpreendidos e humilhados por ladrões armados. Com Zequinha, companheiro de quase três décadas, meu cunhado Mauro Adamczyk, um gaúcho quase carioca, e nosso guia Vitor, um morador e grande defensor da comunidade Santa Marta, vivi um misto de indignação e encantamento. Indignação pelas condições de vida das famílias naquela comunidade. Esquecidas pelo poder público, as pessoas, sem opção de moradia, lançaram mão de uma criatividade imensurável, que encanta e é capaz de intrigar o melhor dos engenheiros e o maior dos arquitetos, para erguer e equipar suas casas. Até para comprar um móvel, um fogão, por exemplo, precisam medir a largura da viela por onde vão subir e depois comparar com o produto que querem adquirir, sob pena de terem de devolvê-los. Em palavras seria impossível definir a construção de casas em série sobre um morro de mais de três mil metros de altura. Vídeos, fotografias ou qualquer outro recurso tecnológico também seriam inúteis. Embrenhar nas vielas, subir e descer centenas de degraus e passar praticamente dentro dos barracos é única maneira de descrever fielmente uma favela carioca. Essa é uma experiência extremamente enriquecedora. Além deixar o lugar se considerando um privilegiado, mesmo sem entender por que são eles e não você morando na favela, passaria a ver com outros olhos os cidadãos dessas comunidades. Pacificada há cerca de três anos, a comunidade tem sido uma atração turística. Oferece uma vista inebriante do Rio que já serviu de cenário para clips de Michael Jackson e cenário de novelas e filmes. Mas os moradores querem muito mais, serem ouvidos e atendidos em suas reivindicações. No final do ano passado, a comunidade instalou sua própria rádio, uma emissora comunitária que funciona como um canal de reivindicações e mobilização levando informações, serviços e entretenimento aos moradores. ALECY ALVES é repórter no Diário [email protected]

Edição EDIÇÃO 16960




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