Hoje, começo perguntando: você já ouviu falar de Fidel? De Hugo Chaves? Certamente, sim. Do que ouviu, provavelmente, quase tudo foi em sentido negativo, certo? Motivo: eles contrariam interesses estadunidenses; logo, são alvos para escárnio da mídia. Do primeiro, não se faz matéria sem mencionar que se trata de um ex-ditador cubano. De Chaves, que se trata de um seguidor daquele, mas na Venezuela. Continuo: até esses dias, você sabia quem é Ben Ali? Eu disse Ben Ali, não Bin Laden, o terrorista que ninguém sabe onde está, mesmo com toda a tecnologia que já há para encontrar até agulha em palheiro. E o senhor Hosni Mubarak, você sabia de sua existência até dias passados? Sabia que o Egito, das pirâmides e das múmias, era governado de forma ditatorial há mais de 30 anos? Que na Tunísia e em outros países do Oriente Médio a coisa era/é muito semelhante? Para essas últimas perguntas, possivelmente, a resposta seja não para a maioria delas. Motivo: tais personalidades, irrefutavelmente ditadores, antes e acima de tudo, são aliadas políticos das potências ocidentais, com destaque dos EUA. Portanto, não causavam nenhum distúrbio à lógica capitalista. Por isso, sociedades silenciadas por ditadores, como a egípcia, p. ex., não entravam na pauta política da mídia do Ocidente. Todavia, eis que de repente, o mundo acordou com a Tunísia, a Argélia, a Turquia em convulsão social como nunca antes vivida por aqueles povos. No Egito, a população, com destaque à juventude, não sai da praça central do Cairo. É a revolução. Diante da força das imagens, veiculadas primeiro por sites da internet, a mídia ocidental cedeu ao óbvio e citou a palavra tão temida quanto escondida: revolution. Em meio a esse clima de revolução por várias partes do planeta, um suplemento da Folha de São Paulo (24/01/2011), destinado aos adolescentes e jovens brasileiros (Folhateen) chegara em bom momento, posto comparar ações políticas de jovens de outras nações com as de nossa juventude. Entre fotos, gráficos, ilustrações, surge um interessante resumo no suplemento: No Reino Unido, revolta contra o aumento das taxas universitárias; na Grécia, jovens reagem à crise econômica entrando em choque com a polícia; na Tunísia, morte de jovem é estopim para a revolução que derrubou o ditador Ben Ali...; na Turquia, universitário ataca fotógrafo durante passeata em prol de uma melhor política educacional; na Venezuela, jovens criticam o presidente Chaves e são recebidos com jatos dágua pelo Exército. Do Brasil, eis o que segue: jovens vão ao Congresso Nacional protestar contra aumento de mais de 60% no salário dos parlamentares. Dito assim, tudo parece semelhante em todos os países; o que não é verdade. A multidão vai às ruas em quase todos os lugares em convulsão. Todavia, por aqui, prefere-se discutir vidas insignificantes de partícipes de realities shows a ir às ruas. Abestalhada, domesticada e sentada à frente da TV, a multidão brasileira apenas assiste a uma centena de estudantes esbravejando por algum motivo, em geral, dos mais sérios, como o mencionado na matéria aos teens. Fico imaginando se tal agressão simbólica o aumento dos parlamentares fosse num país de gente sangue quente. Nada e/ou ninguém ficaria em pé. Destroços. Pena que nosso sangue esteja congelado. Nem parece que somos de um país tropical. Talvez um de nossos maiores problemas seja acreditar muito que o Brasil seja mesmo abençoado por Deus e bonito por natureza. O Oriente já está acordando. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT
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