ARTIGO
Sábado, 03 de Outubro de 2009, 00h:04
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ANA ROSA FAGUNDES
Sobre cartas e encontros
Dias desses, encontrei um velho amigo de cartas. Um menino que conheci enquanto estudava, em idos de agosto de um ano que nem lembro. Há muito tempo não o via, e há muito mais tempo não trocava uma linha com ele. Foi constrangedor. Constrangedor porque um dia ele foi detentor das narrativas dos meus acontecimentos diários, e com certeza ainda detém as inúmeras cartas que um dia eu mandei a ele sobre minha vida cotidiana, sobre pensamentos que, provavelmente, hoje já não são os mesmos. A maneira como nos conhecemos foi a mais poética possível. Numa aula de química cheia de composições, deixei uma frase na minha carteira, o essencial é invisível aos olhos. Quer conversar?. Bobo, mas Antoine de Saint-Exupéry coube perfeitamente ali, naquela época. E Alguém me correspondeu. Começamos uma conversa e uma amizade. Ficamos por um tempo trocando idéias pela carteira. Não ousava mais faltar aula, minha alegria era chegar e ver o que me aguardava. Tristeza era segunda-feira, no final de semana as tias da limpeza lavavam tudo, não sobrava uma linha sequer. Fomos para um método mais eficiente e que de certa maneira me ajudou em minha vida posteriormente: cartas! No meu colégio, onde todos andavam de calça de brim azul, camisa branca de botão, havia armários. Os armários além de serem muito úteis para guardar o uniforme de educação física e o livro de química, passaram a servir de caixa postal. Foram incontáveis missivas. Não consigo nem imaginar quantas cartas escrevi ao longo de dois anos. Da maneira que segue a narrativa, parece que eram cartas de enamorados. Não, nunca o foram. Eu escrevia sobre as trivialidades da vida, sem precisar ou me esforçar em parecer inteligente. Escrevia na aula sobre a aula e os aspectos do professor que falava engraçado. Escrevia sobre as provas, escrevia sobre os amigos que via. E ele também. Escrevia sobre a galinha que aparecia em seu quintal, sobre o pai, sobre seus desenhos. De vez em quando eu e esse meu amigo nos víamos. Era ruim porque acabava o assunto para as cartas. Um dia ele me escreveu claro que a gente vai se corresponder depois da escola! Mas criar expectativa só gera ansiedade e incertezas. Eu sei que deixei meu amigo clichê e bobo nesta frase, mas isso ele não era. Ele tinha uma narrativa fantástica, era, e ainda é pelo que me parece, muito inteligente. Mas a frase é só para figurar o que não aconteceu. No último ano do colégio passamos a estudar no mesmo período. E como nos víamos constantemente paramos de nos corresponder. A amizade não progrediu muito presencialmente. Estacionou, ficou parada lá, ou na enorme caixa que guardo cheia de cartas. ANA ROSA FAGUNDES é repórter