ARTIGO
Quarta-feira, 29 de Maio de 2013, 22h:01
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AMADEU GARRIDO
Sobre a futilidade
O motivo torpe ou fútil é causa agravante do homicídio e da exasperação da respectiva pena. Nem por isso 30% dos homicídios, segundo notícias, deixou de ser determinado pela futilidade. Ao mesmo tempo, noticia-se que o Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, agrediu um cidadão que o ofendeu. Um casal é morto porque fazia barulho num condomínio residencial. O pavio curto faz explodir a bomba da futilidade nociva e ilícita. O que se depreende é o acometimento da sociedade por uma doença psicológica e ética. A futilidade, em geral, se mede pela desproporção entre uma agressão, não raro banal, e uma resposta desproporcional. É certo que a toda ação corresponde uma reação, imediata e contrária. No mundo da física, essa reação tem a mesma energia da ação. No mundo social, é preciso pensar para reagir nos mesmos moldes em que ocorre a reação no campo da física. O que se constata é que tal parada reflexiva ocorre cada vez mais raramente. No fundo, uma boa parte de nossa população carrega traumas, medo, remorsos, desejos de vingança, muitas vezes dirigidos às instituições que não funcionam, a uma justiça que não repõe as coisas em seu devido lugar a tempo e modo, a governantes ineptos ou corruptos etc. E suporta males físicos que um sistema de saúde precário não cuida como devia. Tudo isso forma um complexo neurótico que se revela no saque de uma arma e no disparo a um bêbedo que nos dirigiu palavras inconvenientes, ou a um mau motorista que ingressou em nosso espaço por imperícia e inexperiência, principalmente nos centros urbanos carentes de espaço. Nossas machucaduras materiais e emocionais vêm à tona como se fôssemos um vulcão prestes a inundar de larvas toda a pradaria. Se 30% dos homicídios se inseriram nesse contexto, os casos de reações desproporcionais que não chegaram ao ato de tirar a vida de alguém, mas criaram sérias crises de convivência, atingem uma proporção enorme, sobretudo nos grandes centros. Subitamente, todas as causas de nosso desconforto psicológico são resumidas à conduta agressiva, mas suportável, de outrem. Depois de tantos desaforos, a começar dos que, periodicamente, nos são lançados quando comparecemos às urnas, não estamos dispostos a "levar mais um para casa". Afinal, temos direitos a uma gama enorme de componentes da cidadania, mas a maior parte é desconsiderada. Visto que não possuímos canais eficientes para identificar os agravos e obter os cabíveis desagravos, desforramo-nos sobre aquele que praticou a imprudência de encarná-los, ao nos tisnar com algo absolutamente desimportante, no contexto da vida da vítima, do agressor e da comunidade. O perdão talvez seja o ensinamento cristão mais distante de nossa vida diária. O perdão é encarado como uma fraqueza, a admissão pusilânime do gravame que nos foi imposto, ao passo em que é uma admirável demonstração de grandeza. Talvez Cristo na cruz não devesse perdoar o bom ladrão, que estava a seu lado nos madeiros, pela simples razão de que não há bom ladrão. Façamos uma pesquisa para averiguar quantos entre nós admite a existência dessa figura paradoxal e, por mero exercício de lógica, não estariam em desacordo com o comportamento do crucificado. As gerações se sucedem e as anteriores imaginam que as novas - seus filhos, nos quais todos depositam fundadas esperanças do bem e do melhoramento do mundo - sejam melhores. Engano. O que presenciamos, pelo menos no Brasil, é que as relações sociais são cada vez mais carcomidas pela incompreensão, pelo desapreço ao próximo, pelo egocentrismo dos jovens (basta ver os conflitos nas "baladas" e nos jogos de futebol) fenômenos subjetivos que se exteriorizam, em sua pior dimensão, por essa enorme gama de homicídios perpetrados por motivo fútil. * AMADEU GARRIDO é advogado