NA HORA
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ARTIGO
Sábado, 04 de Julho de 2009, 14h:00

PAULO LEITE

Sobre a fé e o amor

Dois homens procuraram um velho sábio que vivia à beira do rio e tinha a reputação de prever o futuro. Ambos queriam antever o amanhã. O primeiro, de meia idade, estava preocupado com seus negócios. O segundo, muito jovem, buscava alento para seu coração apaixonado. Franzino, de longos cabelos grisalhos, o ancião era uma espécie de benzedor do lugar. Todos que o procuravam, além da reza costumeira, recebiam um conselho ou um aviso. Sua fama correu léguas e qualquer um que se visse consumido pela dúvida, recorria às orações ou aos vaticínios do antigo xamã. O primeiro visitante, humildemente, pediu uma palavra de conforto e as previsões do benzedor sobre as perspectivas de seu comércio. O segundo, ajoelhou-se respeitosamente diante de seu oráculo, e quis saber quanto ao futuro de suas relações amorosas. Depois de alguns minutos de silêncio, o sábio pegou um ramo de arruda e pôs-se a rezar. Então, levantou-se, tomou os dois fiéis pelas mãos e levou-os até a margem de um rio tranqüilo e transparente. Ao primeiro ordenou: - Pegue uma pedra e atire o mais longe que puder nestas águas. Ele assim o fez. Escolheu uma pedra colorida, de tom avermelhado, e lançou-a com firmeza. Virou-se, então, para o mais jovem e disse: - Agora, você mergulhe e encontre a pedra que seu companheiro jogou... Mesmo incrédulo, o segundo caiu na água e começou a procurar. Por várias vezes ele subiu à superfície, tomou fôlego e mergulhou novamente. Após uns dez minutos, o rapaz alcançou a margem e entregou o pedrisco vermelho ao velho. - E agora? – perguntou em tom desafiador. Imperturbável, o rezador jogou a pedra no chão, deu as costas e saiu mansamente. - É só isso?... Nós queremos saber a moral da história – irritou-se o outro. Lentamente, o sábio voltou-se para os dois e sussurrou, como se contasse um segredo: - A explicação é a fé. Você que jogou a pedra, o fez porque acreditou que ao atirá-la bem longe poderia encontrar respostas. E você que foi buscá-la confiou no seu instinto. Os dois entreolharam-se assustados. O benzedor olhou para o comerciante e disparou: - As soluções para os seus negócios não estão na intensidade com que você se atira a eles; mas sim na crença que você tem em sua própria força. Então, deitou os olhos em direção ao jovem e falou: - E você... Um amor exige muitos mergulhos até que se encontre sua essência. Quem se entrega de uma só vez, nega ao ente amado os prazeres da descoberta e da reconciliação cotidiana. Dizendo isso, continuou solene sua caminhada até desaparecer no horizonte. Enquanto fitavam aquela figura perder-se na paisagem, os dois homens suspiraram, descansaram do assombro e tomaram, logo em seguida, o rumo de suas casas. O mercador foi mais confiante, e o sentimental, com a alma mais enternecida. A vida é assim mesmo, as respostas certas para as nossas angústias não estão na sabedoria dos outros, mas sim na sensatez de nossos próprios corações. * PAULO LEITE é jornalista e escritor

Edição EDIÇÃO 16962




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