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ARTIGO
Terça-feira, 25 de Junho de 2013, 20h:25

GABRIEL NOVIS NEVES

Simbolismo

“É impressionante a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer” – Caetano Veloso. A presença de dez mil manifestantes na marquise do Congresso Nacional é o simbolismo de toda a indignação do povo brasileiro. Mitos foram para o lixo da nossa história. A pátria das chuteiras não existe mais. Pela primeira vez a ex-nossa seleção canarinho ficou refém do povo em um hotel de luxo de Fortaleza, uma das cidades que recebe auxílio das mais variadas bolsas do governo federal. O povo quer, entre outras coisas, saúde, educação, segurança e o fim da corrupção desenfreada que tomou conta desta nação. Não se conforma com o fato da construção de modernas arenas padrão FIFA serem a prioridade nacional. Este exuberante movimento social não conta com a presença da UNE, OAB, sindicatos, artistas, intelectuais, partidos políticos e daqueles personagens tão frequentes nessas ocasiões. São jovens estudantes, em sua maioria, e trabalhadores lutando por um Brasil íntegro e por melhorias nos serviços públicos. Os vinte centavos de aumento da passagem dos ônibus foi apenas a senha para desencadear essa manifestação popular ordeira. Todos se revoltam com os bilhões gastos com a Copa do Mundo, com a inflação voltando, o desemprego e a miséria. Um dos alvos tem sido o local dos jogos, onde os pobres não entram por absoluta falta de dinheiro para comprar os ingressos tão caros. Esse movimento, que assustou o Planalto, foi todo comandado pelas redes sociais, fazendo acender a luz amarela na estrondosa vaia no Mané Garrincha. A tomada do Congresso Nacional, a invasão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a tentativa de penetrar na residência oficial do governador de São Paulo e as manifestações simultâneas em Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Salvador, Recife, Maceió e Vitória, marcaram o início do movimento, que contou com a adesão de outras capitais e cidades, especialmente daquelas escolhidas para sede dos jogos da Copa. O Ministro perpétuo do Palácio do Planalto, há dez anos morador naquele local, calculou mal e menosprezou o poder de revolta da nossa gente, quando, após a condenação dos mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou, em entrevista, que “este ano o bicho vai pegar”. Imaginou que o povo sairia às ruas para defender os condenados pela justiça. Santa ingenuidade! O povo ordeiro está nas ruas por uma causa justa, apartidária em defesa do Brasil, e não, de grupos políticos. Consta que uma minoria formada por baderneiros, está infiltrada na multidão ordeira, estimulando manifestações de vandalismo. Isso sempre ocorre em movimentos de massa e deve ser administrado por uma polícia preparada em termos de inteligência e não de truculência. Não esquecer que algumas minorias transformaram a história do Brasil, desde o seu descobrimento. Um pequeno navegador português e a sua tripulação ousaram descumprir a ordem imperial de ir às Índias, e acabaram descobrindo o Brasil. A libertação dos escravos, a Independência do Brasil, a Proclamação da República, foram feitas por uma minoria rebelde. A revolução de 1964 iniciou como um movimento dos conservadores, das mulheres e da igreja católica, para evitar a implantação do comunismo em nosso país. O povo organizado não participou do movimento, especialmente da passeata dos cem mil em São Paulo. Desta vez, quem saiu às ruas foi o Brasil, indignado com os desmandos nesta terra de gente boa e trabalhadora. “Nós somos controlados pelo acaso, mas não temos paciência suficiente para aguentar seu despotismo” - Edward Dahalberg. O Brasil de hoje não é o de ontem. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16960




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