ARTIGO
Sexta-feira, 19 de Junho de 2015, 19h:40
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TÂNIA NARA MELO
Sem explicação
Nos últimos dias tenho visto muitas matérias denunciando casos de abuso sexual de crianças e adolescentes, atos de violência praticados quase sempre por pessoas próximas de suas vítimas, seja por laços de sangue ou de convivência. Os desconhecidos também têm seu quinhão nesses registros, mas são poucos, bem poucos. As denúncias têm sido cada vez mais constantes e a idade das vítimas vem caindo a cada novo caso investigado. Não há como ficar indiferente a essa violência contra quem ainda nem começou a aproveitar as oportunidades da vida. É revoltante. Não há caso maior ou menor, toda e qualquer violência praticada contra crianças e adolescentes é sempre um atentado contra a vida, pois embora a vítima consiga sobreviver ao ataque de seu agressor, a maior parte vai carregar consigo todo o peso do constrangimento e da dor sofridos pelo resto dos seus dias. Difícil apagar da memória algo tão traumático. Nas páginas policiais todos os casos se parecem, a trajetória dos acontecimentos se sucedem quase sempre da mesma maneira, ou seja: algum parente ou conhecido se aproveita da ausência dos pais e busca intimidar suas vítimas para submetê-las à sua vontade. Quanto mais próximo da vítima é o agressor mais violento ele é. Constrangidas, com medo e vergonha, as vítimas vão convivendo com a violência. Todos os dias temos denúncias, os casos parecem se multiplicar. Aí a gente se pergunta: serão consequência dos tempos modernos ou apenas estão ganhando as manchetes porque hoje há mais espaço e meios para denunciar esse tipo de crime? Até porque abuso sexual contra crianças e adolescentes não é uma prática nova. Recentemente, um caso me chamou a atenção não só pela violência em si, mas, principalmente, pela idade dos agressores: adolescentes de 15 a 17 anos. O caso aconteceu na cidade de Castelo do Piauí, no interior do Piauí, onde quatro adolescentes foram vítimas de estupro coletivo. Elas foram amarradas, amordaçadas e, depois de violentadas, jogadas de um penhasco. Uma das adolescentes acabou não resistindo aos ferimentos e morreu depois de ficar dez dias na UTI e passar por uma cirurgia para a reconstrução da face. O caso chocou a cidade e nem poderia ser diferente. Afinal, o que leva jovens de 15, 16, 17 anos cometer tamanha violência contra alguém? Não consigo entender ou encontrar uma explicação que justifique um ato bárbaro como esse. Nem os animais, que são considerados irracionais, agem dessa forma. Uma coisa, porém, acredito exercer influência na forma como os jovens hoje em dia vêm se manifestando em relação à sexualidade. A forma precoce como as crianças e adolescentes estão perdendo a inocência e sendo inseridos no mundo dos adultos, despertando sua sexualidade cada vez mais cedo, sem ainda saberem direito que caminho seguir ou discernir o que é certo ou errado. As consequências de tudo isso são imprevisíveis. E eu ainda procuro explicação para tanta violência. TÂNIA NARA MELO é editora de Opinião do Diário