Em sã consciência, não sei se, especialmente para as pessoas de espírito verdadeiramente democrático, amantes da liberdade e da tolerância, sobretudo religiosa, existem motivos suficientes para comemorar a queda do ditador Hosni Mubarak, após 30 anos se sucedendo no comando do Egito. Numa tirania que, financiada a rodo pelos Estados Unidos, investiu mais em armas e na modernização tecnológica de suas Forças Armadas do que em saúde e em educação para o seu povo. Desde a morte de Gamal Abdel Nasser em 1980, possivelmente o maior líder político que não só o Egito, mas todo o mundo árabe já produziu, aquela relativamente jovem nação apenas inchou, ao invés de crescer econômica e socialmente. Com exceção do gigantismo do seu aparato bélico que consome os bilhões de ajuda externa dos EUA e da Europa e ainda suga os parcos recursos próprios em detrimento de outras áreas mais essenciais para a população. Após Mubarak ser obrigado, recentemente, a cair fora do posto executivo mais alto do seu país, o risco que os egípcios agora correm e ver uma ditadura ser sucedida por outra, militar, civil ou o que é bem pior, serem asfixiados por grupos teocráticos e clericais, doutrinários e ideologicamente alinhados às vertentes do fanatismo islâmico. Os mesmos que, numa interpretação radical e desumana do Islã, infelicitam algumas populações árabes. Cujo exemplo é o Irã, onde mulheres são chicoteadas por qualquer ato mais liberal, quando não são condenadas à morte por apedrejamento ou à forca, e homossexuais são igualmente enforcados ou também apedrejados. A mesma desdita é suscetível de ocorrer e sempre está ocorrendo - com os adversários políticos e dissidentes do regime que, por sua liderança ou firmeza de convicções, passam a representar qualquer ameaça aos ditadores fanáticos de plantão, que os remetem para as masmorras ou para a morte. Uma ditadura com esse perfil medieval, retrógado, infelizmente não pode ser descartada no Egito, onde faltam líderes emergentes mais modernos com carisma e projeção popular para comandarem as grandes massas locais rumo à desejada plenitude democrática. Nesse vácuo, sobram duas correntes organizadas, a formada pelos militares nacionalistas, pseudo-populares e cevados na corrupção e nas benesses do poder, e a outra que conta com a participação e simpatia de pessoas seduzidas pelos clérigos tresloucados. Voltando a Mubarak, este não resistiu ao cerco de 19 dias representado por manifestações públicas de protestos, mais ou menos espontâneas e até certo ponto sem um comando unificado, que eclodiram basicamente e com maior intensidade no Cairo (a capital daquele país árabe). Renunciou à chefia do governo e passou o comando para o vice que, por sua vez, cedeu o poder para uma junta militar. Esta, chefiada por um marechal da confiança e afinado com o regime imposto por Mubarak, assumiu com juras e promessas de democratizar e garantir eleições livres. Só não disse para quando. Geralmente, no histórico de quedas de ditaduras, civis ou militares, quando comandantes militares assumem a chefia do Executivo, fecham os parlamentos e restringem a atuação da justiça, quase sempre são tentados a continuar levando adiante a missão de libertar o restante da sociedade. Ou seja, a esmagadora maioria da população de seus países É a situação atual do Egito. Mário Marques de Almeida é jornalista. www.paginaunica.com.br. E-mail:
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