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ARTIGO
Sexta-feira, 06 de Junho de 2014, 20h:44

JAMIL BENEDITO PINHEIRO

Réquiem para os audazes

Nos primórdios do século passado, adentrou a estas terras unidas por uma espinha dorsal, chamada Rio Paraguai, um hombre chamado Perey Harrison Fawcett. Aliado ao fato de ser um tenente coronel da real artilharia inglesa e que servira no Ceilão e na Índia, onde reforçara sua vocação mística e também servira na I Guerra Mundial, ostentava ainda aquele oficial os conhecimentos de antropologia, tipografia e mestre em agrimensura entre outros títulos. Antes, fora incumbido pelo governo inglês para resolver questões territoriais entre o Peru e a Bolívia, resultante de uma guerra que fizera o país vizinho perder a saída para o mar. Durante a sua permanência naqueles países, seus olhos contemplavam a fronteira que delimitavam com um país/continente chamado Brasil e com um especial interesse para uma de suas regiões que abrigava o Pantanal, o Guaporé, o Arinos, o Teles Pires, o Araguaia-Xingu, entre outras e com um imenso carinho para a Serra do Roncador. Passando por três Lagoas em direção a Corumbá e partindo da Cidade Branca através do curso do Rio Paraguai e seus tributários, o mesmo aportou em Cuiabá onde o exímio atirador definitivamente personificou o aventureiro "El Inglês". Amparado em seu prestígio pessoal e do ótimo relacionamento dos governos inglês e brasileiro e com argumento de realizar pesquisas arqueológicas, conseguiu autorização legal para movimentar-se livremente pela nossa região. Na oportunidade, prontificou-se El Senor "Mariscal Rondon" a acompanhar o ex-oficial em suas incursões. Ajuda prontamente recusada por medo de revelar seus verdadeiros intentos. Não escapou, aos olhos de águia do aventureiro, a sagacidade de "Vermelho" e "Vagabundo" dois cães nascidos em Cuiabá os quais tornaram-se seus companheiros e fortalecidos com a precisão da mira de uma "Winchester calibre 30" iriam resolver problemas como a fome e o perigo a curtíssimo prazo. Na época, em Cuiabá, podia ouvir-se os primeiros e fantásticos acordes do menino prodígio Levino Albano da Conceição, considerado o rei do violão brasileiro e que aqui nascera para consagrar-se mais tarde como membro da santíssima trindade dos precursores do violão brasileiro juntamente com os pernambucanos Quincas Laranjeiras e João Pernambuco. Ainda naquela época, povoava a imaginação de todos que por aqui passavam e que aqui viviam as fábulas e parábolas que faziam La Fontaine revirar em seu túmulo. Histórias que despertavam a fantasia e alimentavam o fascínio pelo diamante e pelo ciclo do ouro abundantes em nossa terra e que atraiam bandeirantes, forasteiros e estrangeiros de natureza diversas provocando-se sangrentos conflitos na busca de riquezas. Na mesma proporção, a história dos índios morcegos com cara de macaco que viviam nas cavernas e saiam a noite para caçar, a sucuri que engolia um homem inteiro e os espíritos que protegiam as matas e os rios, tornavam o aventureiro o mais atento dos ouvintes. É fato, porém, que todas essas histórias eram simples confirmações de tudo que ele, um estudioso de civilizações, já sabia. Quando da sua última incursão em direção a selva do Xingu, além do Eldorado, talvez ele tenha tentado buscar e encontrou a consagração em uma nova dimensão nas cercanias ou nas entranhas da Serra do Roncador. Talvez quem sabe as agruras de uma região inóspita fizeram-no sucumbir ante a realidade local, quando a sagacidade de "Vagabundo" e "Vermelho" não mais era sua aliada. O abrigo sepulcral de um aventureiro inglês e que inspirou o personagem Indiana Jones na região da Serra do Roncador, não importa se em outra dimensão ou não, e a história do mercenário belga que lutara nas selvas africanas, e foi um dos aventureiros inspirador do filme "Os Selvagens Cães de Guerra" e que faleceu em Rondonópolis, são fatos associativos e marcantes que engrandecem e enriquecem ainda mais a vocação ímpar de nossa região para história real de aventuras e de aventureiros permitindo-nos concluir com facilidade que nesta terra Sagrada do Pantanal e ou no Templo Sangrado do Roncador, pulsa o coração brasileiro da verdadeira aventura. Daí a nossa convicção de que a riqueza de nossa região não está sustentada somente no agronegócio, assunto sobre o que podemos e devemos falar com muito orgulho. Mas também devemos reconhecer que a herança de um país continente é legado da inteligência, valentia e amor a pátria de brasileiros de várias gerações os quais protagonizaram episódios de gloriosas conquistas. Precisamos, urgente e definitivamente, dar um caráter de respeito às nossas instituições como forma de garantir a ordem e a prosperidade para todos. Pois somente assim procedendo, vamos consolidar esta "civilização tropical brasileira". Conforme Darci Ribeiro foi tão esclarecedor ao assinalar a nossa diversidade. * JAMIL BENEDITO PINHEIRO é empresário e ficcionista e autor e criador da revista Capital Pantanal e ex-aluno do Patronato Santo Antonio [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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