Parecia um anúncio daqueles produtos de TV. Usando termos pomposos como reestruturação, reegenharia, planejamento sistêmico e tal e coisa, a nova política de Segurança Pública vinha ainda embalada com uma promessa das mais ambiciosas: baixar o crime, radicalmente, em cerca de 30 dias. Nossos problemas acabaram? Não, como bem sabe o assustado cidadão cuiabano. Um mês depois de assumir o cargo, e promover erros grosseiros como o enfraquecimento da Polícia Comunitária e a extinção do Batalhão Ambiental, o novo comandante-geral de PM, coronel Adaildon Morais, teve de sacar da cartola uma explicação marota. Tratava-se de apenas de uma frase de efeito, destinada a mostrar à população que aquele objetivo a longo prazo seria tratado com energia e linha dura. Naquele dia, durante uma entrevista coletiva na sede da Secretaria de Segurança Pública, ficou claro que estávamos diante de um grande e arriscado salto no escuro. Pois bem, a experiência falhou. E voltamos ao antigo comando. Não significa, de maneira alguma, que estejamos de volta ao rumo certo. Se serviu para alguma coisa a fracassada reengenharia da PM, foi mostrar que todos, sociedade e Poder Público, alimentamos expectativas exageradas sobre as estruturas de repressão e o combate ao crime. Pensamos e agimos pouco a prevenção, enquanto observamos crescer de braços cruzados as desigualdades de renda, educação e oportunidades. Ignoramos convenientemente as conexões entre os indicadores de criminalidade e a economia. Entre os assaltos a mão armada e o desemprego. Na semana passada, participei em São Paulo de um congresso sobre jornalismo investigativo. Um dos palestrantes, o jornalista Cláudio Júlio Tognolli, prêmio Jabuti de literatura com o petardo O Século do Crime, lembrou a estreita correlação entre o aumento da oferta de empregos e a queda brutal da criminalidade em Nova York. Em vez de reinventar a roda da repressão, por que então não ocupar nossos especialistas em projetos para façam renascer a baixada cuiabana? Já dispomos de alternativas para dar alento e futuro aos jovens que nascem longe dos eldorados do agronegócio? Que futuro temos a oferecer a eles? A resposta a essas perguntas passa longe do populismo e das ações assistenciais, como tem sido a prática de nossos poderes em todas as esferas. É preciso antes de tudo compreender que não temos mais o tempo a nosso favor. E que não podemos desperdiçá-lo com promessas e frases de efeito. RODRIGO VARGAS é jornalista
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