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ARTIGO
Sexta-feira, 14 de Março de 2008, 21h:16

TÂNIA NARA MELO

Reciprocidade

Há pelos menos 20 dias Brasil e Espanha vivem um mal-estar em conseqüência das repatriações de brasileiros que chegam ao aeroporto de Barajas, em Madri, e da postura das autoridades brasileiras que resolveram deixar de lado a maleabilidade e também começaram a barrar espanhóis. Só esta semana, oito espanhóis foram impedidos de entrar no país e, até agora, desde que tudo começou, as repatriações já chegam a 21. É a aplicação do chamado princípio da reciprocidade. Mas não é de hoje que os brasileiros enfrentam situações vexatórias ao desembarcar em terras espanholas. Vários são os relatos de excesso de burocracia e de maus-tratos. Aliás, as estatísticas do aeroporto de Barajas, em Madri, revelam que no ano passado dois em cada cinco barrados na Espanha eram brasileiros. O caso mais recente é o da jovem Janaina Agostinho, que apesar de ter em mãos toda a documentação exigida pelo Departamento de Imigração e atender todos os requisitos legais para entrar no país, foi retida no aeroporto por mais de cinco dias até que pudesse retornar ao Brasil. Situação semelhante já foi vivenciada por outros brasileiros naquele país, e o que é pior: sem receber a devida atenção do consulado que, em alguns casos, sequer tinha alguém para atender ao telefone. Ineficiência total. Tanto, que a precariedade do atendimento aos brasileiros no exterior foi reconhecida até mesmo pelo próprio ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que disse que nossa ação consular está muito aquém do necessário. O governo, segundo ele, está buscando sanar essas falhas, mas com certeza isso demandará tempo. O problema maior dos brasileiros para obter permissão de entrada em alguns países da Europa está no fato de que por lá as autoridades costumam nos ver como trabalhadores desqualificados ou candidatos à prostituição. E mais: diferentemente do que ocorre no Brasil, onde sempre fazemos um esforço para falar no idioma dos estrangeiros, para que nos entendam, e se sintam em casa, lá, se não se conhece bem o idioma ou os costumes do país, simplesmente nos viram as costas. Por aqui, as autoridades também estão fechando o cerco. Mas isso é coisa recente, pois os dados da Polícia Federal mostram que em 2007 o Brasil repatriou apenas 160 pessoas, de todas as nacionalidades. Número que equivale apenas a 5% do total de barrados na Espanha. Tal medida é muito bem-vinda, com certeza, e não pode ser vista como retaliação aos fatos na Espanha. É necessário apenas mostrar que cá, como lá, também existem regras a serem aplicadas e que devem ser cumpridas à risca. TÂNIA NARA MELO é jornalista

Edição EDIÇÃO 16968




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