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ARTIGO
Terça-feira, 13 de Setembro de 2011, 19h:54

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Pulsar do coração de estudante

Logo chegará a primavera trazendo flores, preparando brotos e frutos. Enquanto isso, exalto a “folha da juventude”, de quem – para Milton Nascimento e Wagner Tiso – “já podaram seus momentos//Desviaram seu destino”. Mas apesar disso, quiçá por isso, “renova-se a esperança” a cada “nova aurora”. Hoje, presto homenagem aos estudantes; afinal, o mundo cai aos pedaços e eles estão de pé, lutando. Imagens de estudantes em luta invadem nossos olhares, renovando esperanças num mundo tão adverso e carrasco com os sonhos, tão impiedoso com os ideais, tão perverso e desonesto com as novas gerações. A violência contra estudantes chilenos é revoltante. Há mais de quatro meses, enfrentando aparato bélico, eles estão nas ruas daquele país, pioneiro do Neoliberalismo. Querem resgatar políticas públicas. Querem universidades gratuitas. Hoje, elas custam o equivalente entre cinco e oito mil reais/ano. A determinação daqueles jovens é lição de cidadania para o mundo. Estão fazendo História com “H” maiúsculo. Mas nem só no Chile se luta. Com as demandas que nos são próprias, nossos estudantes também fazem sua parte. Desde a luta por passe livre, pela não-privatização de serviços públicos, como água e esgoto, até pontos mais complexos, como a manutenção das universidades públicas como públicas, gratuitas e de qualidade, vemos de tudo. E tudo servindo de exemplo a adultos acomodados e acovardados, como a tantos professores que inviabilizaram a greve nacional das universidades federais. Muitos docentes, deveras oportunistas, optaram por continuar contando estórias para boi dormir a seus alunos, como se nada estivesse fora de ordem. Esse tipo de docente repassa aos jovens lições de culto à individualidade; resgata a abominável “Lei de Gérson”: incentivo de se levar vantagem (pessoal) em tudo. É isso o que eles próprios já fazem, mas cinicamente usando espaços e recursos públicos. Esse tipo nunca deveria ser professor, muito menos de universidade pública. Na UFMT, os acadêmicos – como segmento – demonstram respeito pela greve que deflagramos no dia 24 de agosto; compreenderam que a qualidade do ensino já é dívida social, principalmente após o processo de expansão, chamado REUNI, sem as devidas condições. Como exemplo dessa compreensão, cito a Carta Pública do Centro Acadêmico de Biologia, na qual dizem: “percebemos que o descaso do governo com as reivindicações dos professores e técnicos (concursos públicos, principalmente) é o mesmo que envolve as demandas da assistência estudantil...”. Logo, concluem: “...observamos um cenário de diminuição de custos para a Universidade PÚBLICA...”. Já num e-mail que recebi de um acadêmico de Contábeis, ele me diz: “mesmo estando no último semestre e com o TCC pronto, apoiei a greve”. Ele entende “que os ideais pelos quais os professores lutam são importantes”. Vislumbrando o futuro, o jovem acadêmico sugere: “Amanhã é meu filho quem estará numa universidade e se esta não for valorizada poderá até lá ter sido privatizada”. Faz ainda vibrante depoimento: “Há um mês eu também estava em greve. Sou funcionário do DETRAN; e nossa greve foi declarada ilegal, mas conseguimos fazer história. Chego a me emocionar, ‘pois nunca antes na história’... do DETRAN isso tinha acontecido”. Esses exemplos – sim – são aulas de História, e com “H” maiúsculo, que deveriam matar de vergonha professores com “p” minúsculo. São exemplos de corações de estudantes pulsando por um País com “P” maiúsculo. São nossas primaveras humanizadas! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Ciência da Comunicação/USP e Prof. da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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