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ARTIGO
Quarta-feira, 02 de Maio de 2007, 21h:36

JOSÉ N. S. DE OLIVEIRA

Por uma sociedade menos violenta

José Carlos, menino de 13 anos, foi encontrado na rua por uma guarnição policial com algumas “trouxinhas de entorpecentes” no bolso. Na delegacia, ao ser indagado onde morava, o menor disse que não tinha moradia certa, que vivia nas ruas fazendo “aviãozinho” para os traficantes, que não estudava e nem tinha família. Após algumas perguntas, foi possível identificar seus pais, que, ao chegarem à delegacia, disseram que há mais ou menos três meses seu filho estava fora de casa e que não sabiam o paradeiro dele. O que chama a atenção é que os pais não haviam sequer dado queixa na delegacia sobre o sumiço do filho, o que nos leva a discutir a problemática de uma realidade nua e crua do país, que é a desestruturação familiar. O pai, nesse caso, cansou de tentar segurar seu filho longe das drogas e, nada mais podendo fazer, deixou-o à mercê dos traficantes, que o usavam para fazer serviços de entrega aos viciados e outras “bocas de fumos”, em troca de alimentação e alguma quantidade de droga para sustentar seu vício, que o levou a essa realidade triste, real nos nossos dias. Realidade essa que, indiscutivelmente, não é um fato isolado, mas uma constância observada em nossa sociedade. Enquanto isso, são discutidas formas mirabolantes para a atuação das polícias, uma nova polícia no combate à criminalidade e aqui, no Estado de Mato Grosso, uma reengenharia da Polícia Militar, onde somos manipulados por vários “entendidos” de polícia, mesmo os não policiais, que muitas vezes chegam a citar que o “sistema atual está falido”. Todavia, deixam de abordar as origens de tanta violência existente no país, atribuindo toda responsabilidade exclusivamente à Polícia Militar, esquecendo que o sistema de segurança pública é macro, portanto, muito amplo, como uma corrente que une dois pontos, onde em uma das extremidades está a sociedade e na outra a tão buscada paz social, onde a Polícia Militar é apenas um elo dessa corrente. Dentre tantas causas que contribuem para o aumento da violência nos dias atuais, pode-se citar a ausência de uma sociedade voltada para a família, uma das grandes instituições sociais citadas pela Bíblia Sagrada, além da escola e da igreja, que juntas, poderiam em muito contribuir para melhorar a formação do homem como cidadão. Certamente, se uma família preza a qualidade de vida familiar e tem como chefe um homem valorizado profissionalmente, que proporciona melhor qualidade de vida a seus entes, pregando o amor, ensinando a seus filhos os valores morais e éticos de pessoas honradas e assegurando que vale a pena viver com dignidade, com certeza essa família terá sucesso com seus filhos. Uma família que defenda os bons valores e não se deixe levar por falsos moralistas, que pregam, descaradamente, o famoso e vergonhoso ditado de que “quem não puxa saco puxa carroça”, com certeza essa família saberá superar todas as dificuldades impostas pela vida, por serem sólidas na formação familiar, através também da educação escolar e da igreja, acreditando sempre em um ser supremo, que nos ensina e nos ajuda a cada passo que damos na vida, restando tão somente acreditar e seguir seus ensinamentos. Inevitavelmente não se pode deixar de citar as políticas público-sociais, da qual fazem parte a educação, saúde, cultura, transporte, habitação, lazer e esporte às crianças e adolescentes, dentre outras, além da segurança. Não há que se discutir se as políticas público-sociais devam ter maiores investimentos, se quisermos realmente uma sociedade menos violenta no futuro, pois tais políticas obtêm respostas a longo prazo. Já para soluções práticas a curto prazo, as políticas emergenciais estão a pleno vapor, mas é como “enxugar a água com a torneira aberta”, pois, precisamos mesmo é de uma política social que trabalhe a base familiar e só assim obteremos resultados melhores na busca de se estabelecer verdadeiramente um Estado de Direito aceitável. Se assim fosse a nossa realidade, não receberíamos a notícia de que José Carlos, após cumprir sua pena no POMERI, fora encontrado morto por traficantes. Haveria, ao menos, a esperança de um final diferente para este conto policial. * JOSÉ NILDO SILVA DE OLIVEIRA é capitão da Polícia Militar, pós-graduando em Gestão em Segurança Pública

Edição EDIÇÃO 16965




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