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ARTIGO
Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011, 20h:49

ANALU GARCIA BORGES

Política e planejamento

As primeiras cidades datam do Período Neolítico da Pré-História, no qual os povos nômades deram, paulatinamente, o início à sedentarização, e, desse modo, desenvolveram técnicas de cultivo agrícola e passaram a armazenar o excedente da produção. Foi a chamada Revolução Agrícola. Esse período foi marcado pela transição de aldeias para vilas e cidades. Essa mudança trouxe consigo benefícios e também muitos problemas de cunho sócio-espacial. Desde então toda a simplicidade caracterizada pelos povos primitivos deu lugar à complexidade da urbe, organismo vivo em constante mudança, que se expandiu em grande escala e com crescimento desordenado devido a acontecimentos, mudanças e revoluções ao longo do tempo. Entender e enxergar uma cidade como um todo não é simplesmente analisar dados ou quantificar e qualificar problemas decorrentes do mau planejamento. Não é importante prever e sim identificar o que gera transformações e mazelas urbanas e não se criar mecanismos para freá-las ou controlá-las, mas sim proporcionar instrumentos de conhecimento que estimulem o cidadão e as organizações a transformar suas vidas e suas ações. A cidade ideal seria aquela capaz de oferecer boas condições de trabalho, saúde, moradia, recreação, pré-condições sócio-econômicas, físicas, psicológicas e sociais para o cidadão. Pensamento um tanto quanto utópico, ainda mais nos dias de hoje. Essas expectativas e anseios são contraditos pela limitação do seu usufruto, criando-se assim zonas ricas e zonas pobres, cada vez mais segregadas e deixadas à deriva do sentimento individualista do ser humano e oportunismo político-econômico dos mesmos. O problema urbano vai muito além de melhorar ou criar novos acessos viários, construção de casas populares, bem como criação de postos de saúde ineficientes ou parques que mais tarde se encontrarão abandonados e entregues a insegurança. Estas ações são bem incorporadas na atuação partidária que objetiva e implanta táticas de conquista de governo. Não podemos negar o vínculo existente entre a política e o planejamento, uma vez que o Poder Público assume o papel de promotor das transformações, sendo assim complicado se ter um planejamento neutro e desligado da política e de interesses. O ideal seria a existência de uma espécie de mutualismo entre as partes interessadas: governo, planejador/urbanista e população. Transformações na vida urbana podem ser apenas iniciadas pelo Poder Público, a partir da proposta do urbanista e a total efetivação da transformação será sempre coletiva, gradual e lenta. O que se vê muitas vezes são atos de parasitismo e competição. Vale lembrar Rousseau nesse contexto quando afirma que “o interesse coletivo não é a mesma coisa que o interesse de todos.” Melhoramentos e ações positivas no enredo urbano são sempre bem-vindos, mas há de se destacar o aumento destas em épocas eleitorais e/ou grandes acontecimentos, como por exemplo, a Copa do Mundo que será realizada no Brasil em 2014, tendo Cuiabá como uma das cidades-sede. Todo um trabalho proposto e idealizado pelo Plano Diretor de Cuiabá foi esquecido ou posto em segundo plano pela administração pública e iniciativa privada, vindo à tona agora com as expectativas do Mundial. Os governantes estão preocupados em revitalizar o Centro Histórico, deixar o estádio “Verdão” com as exigências necessárias para seu funcionamento, desafogar o trânsito caótico da capital com o melhoramento dos acessos, desse modo criando ligações rápidas do Aeroporto Internacional Marechal Rondon a hotéis e ao estádio. Bons atrativos para a capital que sediará a Copa durante um breve espaço de tempo e terá sua economia aquecida. Toda essa “maquiagem” com obras públicas sem um planejamento espontâneo e pensado em longo prazo pode trazer mudanças abruptas, causando impactos jamais esperados ou previstos. Se o Estado é, se não negligente, ineficaz na resolução das problemáticas que envolvam habitação, saneamento, saúde e educação, poderá existir, pautada pelo interesse coletivo, uma reivindicação da sociedade para com os direitos previamente descritos, uma vez que, como já citado, é de direito. Qual será o legado que a Copa de 2014 deixará para a “cidade verde” e regiões adjacentes? Vejo dizerem em jornais e propagandas que Cuiabá será bastante beneficiada com novos investimentos para a Copa de 2014. Com certeza o evento proporcionará coisas boas. As oportunidades de trabalho serão grandes, o PIB sofrerá um aumento considerável e o cotidiano dos moradores será influenciado pelo inchaço e turbilhão de mudanças ocorridas no período. Tantos acontecimentos em curto espaço de tempo podem ser equívocos e desencadear uma reação em cadeia de outros problemas, pois a demanda deles será maior que a infra-estrutura que Cuiabá oferece para a realização de um evento dessa magnitude. * ANALU GARCIA BORGES, aluna do 4º semestre de Arquitetura e Urbanismo da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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