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ARTIGO
Sábado, 18 de Setembro de 2010, 12h:42

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

Política cansa

Escrever sobre política, notadamente quando se vê o nível da propaganda eleitoral (salvo, é claro, as exceções mais arejadas) ir ao rés do chão, cansa a beleza e estufa o saco de qualquer um. E forçoso é reconhecer que especialmente em um domingo como este (dia de comer macarronada na casa da sogra), os leitores merecem assuntos mais amenos e menos chatos do que ler este escriba comentar sobre o amontoado de promessas vãs, estúpidas e a disputa de egos via TVs e Rádios. Além do mais, neste mesmo espaço na última quinta-feira (16), o jornalista Kleber Lima, competentemente e com o brilhantismo e clareza que lhe são peculiares, dissecou as contradições de candidatos que inundam a campanha eleitoral com propostas equivocadas, quando não meramente incoerentes ou mentirosas. Diante disso, pouco me resta a fazer nessa seara. Parto para outra. E passo a falar de Ronaldo de Arruda Castro, cuiabano da gema, também jornalista e que tinha um texto arrebatador, tanto na prosa como na poesia. Era inspirado em tudo o que escrevia. Por ter partido cedo, não teve tempo para contemplar o sucesso da sua obra. Ele versejava com sabor brejeiro das terras cuiabanas e eu, particularmente, me deliciava - e ainda me delicio, quando relembro – com um de seus poemas que fala da cabrocha dando volteios no tacho de furrundú ou furrudú – o doce feito com rapadura e a raspa do pé do mamoeiro. É de dar água na boca e atiçar a libido, a simbiose feita pelo poeta ao misturar o rebolar da morena cuiabana com a arte de mexer o doce, até chegar no ponto certo.Ronaldo é universal sem nunca ter perdido as raízes dos quintais frondosos da sua cidade. Já em seus artigos, ele se transmutava em nosso Cícero cuiabano em suas ardorosas e eloqüentes catilinárias. Era ferino nas críticas, porém na medida exata, sem descambar para o baixo nível. Manejava a pena como se fosse uma espada afiada de samurai. Tinha intimidade com as letras. E se não atingiu o sucesso literário a que fazia jus em vida é porque isso é raríssimo ocorrer com quem, a exemplo dele, fazia literatura de qualidade em um país onde se lê muito pouco, especialmente poesia. Se fosse livro de auto-ajuda... Exceção de Manoel de Barros, também cuiabano, mas alongado desde há muito do berço natal, ele que é um dos raros poetas que conseguiu romper essa barreira da insensibilidade, mas só pôde comemorar o merecido êxito literário já bem entrado nos anos, da terceira para a quarta idade. Sorte dele que nasceu longevo! E nossa por estarmos também vivos para usufruir do seu talento invulgar de mestre da forma e do conteúdo.. E talvez, pensando bem, Ronaldo só venha a ser “descoberto” em tempos vindouros, dentro de uma perspectiva histórica. E ele não será o primeiro e nem o último, dentre os cultores da palavra escrita, a obter reconhecimento pelo seu valor intelectual muitos anos depois de mortos. Nesse meio, infelizmente, a injustiça e a falta de reconhecimento público – pior ainda do setor oficial, por parte das autoridades, inclusive da área cultural e acadêmica - aflora como rosas em estrume. Mário Marques de Almeida é diretor do site e jornal Página Única. E-mail: [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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