Semana passada, uma notícia bizarra me fez lembrar a mãe que roubou um pote de margarina para alimentar seu filho. Quem leu e acompanhou pela mídia, chegou à conclusão que não foi absolutamente um caso de cleptomania, que foi culpa exclusiva de um remédio usado para combater a depressão. Ao tomá-lo, fica o deprimido com a força do He Man, achando-se o todo poderoso, com vontade e a sensação de que pode destruir tudo e apoderar-se de coisas sinistras. Foi parar na cela de uma delegacia o figurão depressivo, que freqüenta as rodas mais sofisticadas da grande metrópole, cobra e ganha o que quer das socialites, procurando a todo custo justificar o injustificável. Se cobra e ganha o que quer, é devido ao seu talento e a conivência de suas clientes, nada temos a ver com isso, mas, culpar um remédio para tentar explicar a subtração de vasos em cemitério, é alfinetada demais. Li a entrevista do famoso alfinetador na qual ele reclama que no cárcere passou a pão, água e banana. Tadinho, imaginem os senhores que a um alfinetador dessa envergadura, fora oferecido tanta bobagem para se alimentar. Isso deveria ser denunciado à corregedoria da polícia do seu estado. Por que não foi acrescentado na sua dieta camarão, lagosta, trufas, salmão e coisas desse tipo confeccionadas por chefs internacionais? Pão banana e água fazem parte da dieta da grande maioria dos brasileiros otários que trabalham de sol a sol, ganhando um salário de fome, e entregam ao governo quase seis meses de seus vencimentos como confisco de renda, carinhosamente chamado pelo leão de imposto de renda. E a mãe que subtraiu um pote de margarina para alimentar seu filho e passou vários dias presa, será que conseguiu comer pão, banana e tomar água? Lembram-se daquele outro que foi preso, se não me engano, em Brasília, tirando casca de árvore que ele acreditava ter efeitos medicinais, e foi enquadrado em crime ambiental? Os trilhões do INSS levados pela gangue da Georgina, os milhares de reais do TRT de São Paulo garfados pelo LALAU e sua quadrilha, os trilhões dos... dos...e dos..., nada disto tem tanta importância como retirar casca de uma árvore, ou furtar um pote de margarina. Será que estes crimes merecem a mesma pena? Se tivesse eu o poder de sentenciar essas duas criaturas, o alfinetador e a mãe, minha sentença estaria impressa no processo da seguinte maneira: à mãe, perdão pelo seu ato, tendo o direito de receber do estado, todos os meses, uma cesta básica para alimentar seu bebê, e, cinqüenta anos de cadeia para quem alfineta vasos em cemitério. Detalhe: nesses cinqüenta anos, seu cardápio no xilindró será pão, banana e água! * EDUARDO PÓVOAS é dentista
[email protected] Eu perdoaria a mãe pelo roubo de comida e condenaria a 50 anos de cadeia quem alfineta vasos de cemitério