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ARTIGO
Segunda-feira, 10 de Março de 2014, 20h:46

CESAR VANUCCI

País do Carnaval

Brasil, país do Carnaval! Há quem demonstre forte desagrado com a designação. Franzindo a testa em sinal de que comeu e não gostou, coloca desdém na voz sempre que chamado a falar sobre a grandiosa celebração popular. Considera a manifestação um baita despropósito. Algo que, em seu distorcido parecer, empobrece pra valer a cultura nacional. É claro que a turma partidária desse ponto de vista está rotundamente equivocada. Como também é notório que parte dessa minoria de viventes preconceituosos em relação ao Carnaval não é de se rejubilar com a circunstância de nos fazermos também reconhecidos como país do futebol. Não é improvável, também, que se sintam mais à vontade na comemoração, por exemplo, do “halloween” do que de uma festa junina tipicamente roceira. Ou até que achem naturalíssimo o emprego pedante e amiudado, no bate-papo com conhecidos, de expressões em “inglês moroless”, como “feedback”, “brunch”, “feeling” (e por aí vai...), para classificar situações obvias do cotidiano. Não nos importemos, todavia, com o que alguns poucos pensam e dizem do Carnaval. As vibrações feéricas, magnéticas, contagiantes desse inigualável festejo, aqui por estas bandas, são únicas. Exprimem admiravelmente, como acontece também no reino do futebol, o modo de ver e sentir de nossa gente. Estampa, de forma magistral e exuberante, as múltiplas faces da genuína cultura nacional. Disponho-me a contar, em seguida, coisas amenas de outros carnavais. Naquele tempo, sabe seu moço, a criação musical era mais pujante. O Carnaval era época geralmente reservada para lançamento de belos sambas e marchas, boa parte deles até hoje com lugar assegurada na memória das ruas. “Ala la ô”, “Chiquita Bacana”, “A Jardineira” e “Não me diga adeus” são alguns clássicos da incomparável canção popular brasileira nascidos nos teatros-revistas e nas rádios, por ocasião do então chamado “tríduo momesco”. Essa expressão aí, por sinal, acabou caindo em desuso em todas as partes do país, mas, na verdade, um pouco mais mesmo na Bahia, já que o Carnaval da "Boa Terra' costuma começar bem antes e acabar muito depois, como é sabido por todos e desfrutado por muitos. Autores e intérpretes musicais se preparavam, então, para o Carnaval com o mesmo capricho e cuidado de qualquer artista na antevéspera de uma temporada de espetáculos. O concurso das melodias carnavalescas fazia parte do show. Servia de trampolim para a glória. Naquele tempo, lança-perfume não era considerado esguicho alucinógeno. Todo folião digno do nome trazia-o sempre ao alcance da mão, nos salões e nas ruas. Os mais abonados adquiriam caixas de artefatos metálicos. Outros já consumiam os de vidro, mais baratos. Tinha-se por certo, na consciência coletiva, que o dano extremo que o emprego do lança-perfume conseguia produzir era um ardor incômodo, quando o gélido jato do conteúdo das bisnagas atingia o olho de algum desprevenido folião. Vez por outra, alguns poucos carnavalescos, debaixo da reprovação da maioria, se compraziam em promover duelos de lança-perfume. Contrariavam, assim, a regra pacificamente aceita de que o lança-perfume nada mais era do que uma forma galante de aproximação. O Carnaval bem diferente dos tempos de hoje projetou, nos últimos anos graças sobretudo à cobertura da televisão, uma visão panorâmica impressionante da capacidade artística brasileira. A alegria, que costuma explodir franca e espontânea em tudo quanto é espaço ocupado pelos foliões, serve de pano de fundo para que sejam expostas – repetimos - as múltiplas e exuberantes faces da cultura nacional. As tradições, os símbolos folclóricos, os mitos, os costumes de cada região e trabalhados por carnavalescos criativos ganham colorido, ritmo e vibração nas manifestações. E deixam no espírito popular a certeira certeza de que, seja no Rio ou em São Paulo, nas cidades históricas de Minas, na Bahia, em Pernambuco ou no Amazonas, vive-se, todos os anos, nessa época, em todo o Brasil, uma festa popular incomparável em matéria de promoções a envolver multidões. Produto pra desfrute turístico que nenhum outro país do planeta tem condições, vontade e capacidade de oferecer. País do Carnaval, sim. Com orgulho! * CESAR VANUCCI é jornalista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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