ARTIGO
Segunda-feira, 06 de Outubro de 2014, 20h:07
A
A
MARIO EUGENIO SATURNO
Outras do Hidrogênio
Já tratamos de algumas crenças sobre o carro a hidrogênio, mas outras não menos importantes merecem esclarecimento, uma vez que certamente é um candidato a ser um combustível do futuro e pouco se vê no Brasil iniciativas oficiais a respeito. Vimos que se gerar hidrogênio através de energia eólica, custará cerca de 40% a mais do que o galão de gasolina e, mesmo assim, já é mais barato do que a gasolina e ainda tem as emissões de poluição zeradas. A economia em escala também deve baixar o preço do carro. Quando lançado em 1909, o Ford T era vendido a US$ 825 ou US$ 19.861 a preços de hoje. Já em 1916, era vendido por apenas US$ 345 (8.305 dólares de hoje). Superado o problema do próprio custo, imagina-se que postos de hidrogênio serão muito caros. Em 2009, em Newport Beach, um posto com uma capacidade de 100 kg/dia, custou um pouco mais de US$ 4 milhões para construir, ou 40 mil dólares/kg/dia de capacidade de produção de hidrogênio. É caro porque utiliza tecnologia de reforma de metano. Uma nova usina, em Linde, conseguiu baixar esse custo para apenas 7.500 dólares/kg/dia, ou US $ 2,6 milhões no total. Para se ter uma ideia, um posto de gasolina novo custa cerca de US$ 2 milhões. Para os próximos anos, espera-se baixar esse custo para 4.000 dólares/kg/dia. O carro a hidrogênio não é necessariamente um carro verde. Atualmente, o método mais comum para gerar hidrogênio é a reforma do metano, o gás natural mais comumente extraído via fraturamento hidráulico nos Estados Unidos. Mas pode-se usar energia renovável, incluindo hidrelétrica, eólica e de energia solar, em máquinas de eletrólise, método há mais de duzentos anos. Uma pergunta que vem à mente é por que usar células de combustível e não baterias? Podemos comparar dois modelos, o Toyota Mirai e o Tesla Model S. No quesito preço, não há grande diferença entre eles. Quanto ao abastecimento, ambos necessitam de equipamentos especiais. Em um supercarregador elétrico, o modelo S pode carregar 80% da capacidade em 30 minutos, uma carga completa demora cerca de uma hora. Já o Mirai leva alguns minutos para reabastecer com hidrogênio. Por um lado, uma parada em uma viagem não chega a ser um transtorno, e por outro lado, é possível carregar o modelo S na própria casa durante a noite. Porém o carro elétrico perde feio no alcance. Enquanto o Mirai faz cerca de 300 milhas (500 km) por tanque de hidrogênio, o modelo S faz cerca de 200 milhas (320 km) por carga da bateria. Enquanto americanos e europeus vão debatendo qual carro é o melhor, no Brasil, que tem o maior potencial hidrelétrico, solar e eólico, não se faz nada... No Ceará tem uma empresa que vende aerogeradores de 500 W por dois mil reais, com transporte e instalação fica uns R$ 2.400,00, se a Caixa, por exemplo, aportar três bilhões de reais em quarenta e oito meses para financiar os kites, 1 GW pico será instalado nesse período, em dez anos serão 4 GW. Se aportar dez bilhões em dez anos, será financiada uma Itaipu nesse período, ou dez Itaipus em vinte anos. Só faltam os carros elétricos ou a hidrogênio. *MARIO EUGENIO SATURNO (cienciacuriosa.blog.com) é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e congregado mariano