Este artigo não é muito original. Já foi publicado em um semanário da cidade só que um pouco menor. Nem bem voltaram ao normal as batidas do coração dos mergulhadores que atestaram os vestígios de petróleo nos campos de Tupi, Pão de Açúcar e outro que esqueci o nome, todos na camada do pré sal da Bacia de Santos, a turma do governo já está discutindo o que fazer com o dinheiro que daí virá. Até este ministro Miguel Jorge, do Desenvolvimento Econômico, que não é um bestalhão qualquer, homem de mercado e que já trabalhou na vida está falando nisso. Vindo desta Dilma Roussef, Mantega, Lula, tudo bem. Uma das principais conseqüências que está desenhando no céu é a criação de uma estatal para cuidar do petróleo que será dali retirado, afinal o Petróleo é nosso. Ninguém explicou ainda como será remunerada a Petrobrás que foi quem descobriu tudo e detém a tecnologia para tirar ele de lá. Parece que uma estatal vai ser criada para contratá-la para explorar o tal campo, remunerar seus custos e seus acionistas. Aí a outra estatal depois de pagá-la remunera também seus custos, ai incluído o cabidão de emprego, e remunera seu controlador, o tesouro nacional. E nem explicado está até agora os custos do negócio, a que preço viabiliza o negócio e qual tecnologia apropriada e se será necessária desenvolver uma nova. O único estudo na praça sobre o assunto saiu agora de um banco estrangeiro e fala em uma necessidade de algo em torno de 600 bilhões de dólares o valor necessário para viabilizar a aventura. Estamos falando de 38% do PIB do país. É impossível falar neste valor sem envolver o setor privado. Como esta turma que ai está é do tempo do Petróleo é Nosso não se fala nisso neste governo. Afinal o petróleo é do povo brasileiro, por isso que a Petrobrás sempre foi do povo brasileiro e não pode envolver com empresários inescrupulosos. Aquele engenheiro que ganha periculosidade para trabalhar no Largo da Carioca ali está vigiando os interesses deste povo. E como não é de ferro, final de tarde toma um chopp bem gelado ali do lado, no Amarelinho. Com isso vai o governo Lula reestatizando e desmontando os avanços que tivemos no passado recente. Alguém vai me interpelar. Ando sem saco para discutir esta coisa privatismo X estatismo. Um sujeito falar que o governo dá conta de fazer melhor bens e serviços que o setor privado ele está de sacanagem. Se me perguntarem se na década de 50 eu deixava o petróleo nas mãos de estrangeiros eu diria não. Naquele tempo esta coisa era estratégica. Hoje é uma commodity fedorenta, poluidora e que está o planeta dando um jeito de achar algo para substituí-lo. Se você quiser e tiver dinheiro vai em uma bolsa de mercadoria qualquer, sem sair da sua casa, via internet, e compra toda produção dos árabes. Então ficamos assim, não precisamos ter petróleo, temos de ter dinheiro. Melhor se podermos produzir ele dentro da nossa casa a preços baixos. De preferência não usando engenheiros ganhando periculosidade para trabalhar no asfalto. A petroquímica já está reestatizada. Fala se em milhões as comissões que envolveram esta operação. Claro que não estou falando de comissãozinha pra José Dirceu e Delúbios da vida. É coisa de gente grande. A velha guarda está toda de volta, e operando. O glorioso BNDES está aí cada dia mais ousado. E já se fala em criar um Fundo Soberano. Enquanto isso a dívida externa já passa dos 50% do nosso PIB. Apesar disso nada é surpresa. Se tem algo que não podemos acusar o nosso presidente é de desonesto. Nunca escondeu de ninguém, que governo existe é para dar emprego mesmo falou em discurso em São Paulo há dois anos. O pior é que foi seguido por silêncio ensurdecedor de todo empresariado, supostamente interessado em um governo fiscalmente responsável. Esta operação de criação de nova estatal do petróleo meses depois das contratações no Ministério da Pesca atende uma decisão de governo, de contratar gente. Pôr a turma com a holerite na mão. Uma espécie de Keynesianismo cínico. * PAULO RONAN é economista
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