ARTIGO
Quarta-feira, 22 de Maio de 2013, 19h:58
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Os nenéns e o berço
Dos artigos que publiquei sobre a redução da maioridade penal, na contramão de meus argumentos, alguns leitores expuseram suas réplicas. Vamos à tréplica! Centralmente, afirmei que a redução da maioridade jamais solucionará o problema da delinquência. Por isso, apontei que a educação de qualidade e o acesso a bens culturais de valor populares ou eruditos é o caminho que pode frear, e não exterminar, a incidência de tantos crimes, cada vez mais cruéis. Disse ainda que a educação e a cultura ajudam a nos humanizar. Tive o cuidado de excetuar as mentes doentias do processo. Para essas, é óbvio que nada (educação, cultura, religião, família...) cria sentido. Mesmo assim, alguns leitores saíram com uma máxima bastante mínima: que se educação e cultura fossem a solução para o problema da criminalidade, nenhum médico, advogado, político... cometeria crimes. Diante disso, afirmo que se educação e cultura não são elementos que possam ajudar na humanização do humano e na paz social esta tão desejada principalmente pela classe média sempre tão grudadinha em Deus , sem ambas (educação e cultura), nosso quadro social, que já é um dos mais dramáticos do mundo, ficará insustentável. Alguém duvida? Se alguém duvidar, vamos a uma situação real, mas tratada poeticamente. Nada como a poesia para tentar desendurecer corações e mentes cristãs, quase sempre empedernidas. A poesia destacada aliás, belamente musicada é de autoria de Lenine. Chama-se Relampiano, ou seja, uma forma popular do gerúndio de relampear, que é uma variante de relampaguear. Trata-se de um texto metonímico no todo, enriquecido por algumas metáforas pontuais. Assim, com a devida licença do compositor, transcrevo alguns de seus versos, que, por si, dizem muito do que vejo na dinâmica social desta nossa trágica contemporaneidade: Tá relampiano, cadê neném?// Tá vendendo drops no sinal pra alguém//Todo dia é dia// Toda hora é hora// Neném não demora// Pra se levantar...// Mãe lavando roupa// Pai já foi embora// E o caçula chora// Pra se acostumar// Com a vida lá de fora do barraco...// Hai que endurecer// Um coração tão fraco// Pra vencer o medo do trovão// Sua vida aponta a contramão...// Tudo é tão normal// Todo tal e qual// Neném não tem hora// Pra ir se deitar...// Mãe passando roupa// Do pai de agora// De um outro caçula// Que ainda vai chegar...// É mais uma boca dentro do barraco// Mais um quilo de farinha do mesmo saco// Para alimentar um novo joão-ninguém// A cidade cresce junto com Neném... É claro que as mentes e os corações endurecidos dirão que a pobreza não pode ser justificativa para crimes; se fosse, todos os pobres seriam criminosos, e não são. Não são mesmo! Todavia, potencialmente, todos poderiam ser. Agora, para nosso infortúnio, muitos além de instigados pela exacerbação do consumismo capitalista e afundados no mundo das drogas lícitas e ilícitas já usufruem dessa potencialidade ofertada pelo sistema; afinal, a grande redução (da vida) para a maioria de nossas crianças já vem de berço, ou melhor, das ruas, pois os joões-ninguém sequer tiveram infância, quanto menos, berço. Para a dura realidade de tantos brasileiros que estão abaixo da linha da pobreza, enquanto a infância passa, muitos nenéns ficam vendendo drops pra alguém que para com seus carros nos sinais, e em cujos vidros traseiros cinicamente sentenciam-se: Deus é fiel. Fato concreto: os nenéns desumanizados pela vida crescem e do nada, magicamente, eles aparecem brincando com facas e armas de fogo. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Ciência da Comunicação-USP, prof. de Literatura-UFMT