Guantânamo será fechada? (palavra do candidato, não-cumprida pelo presidente). Engolfado no propósito de reeleger-se, em razão disso, de impedir possa sua popularidade despencar ladeira abaixo, Barack Obama vem fazendo das tripas coração, como era de costume dizer-se em tempos de antigamente. Enfrentando franca hostilidade de aguerridos grupos ultraconservadores do eleitorado minoritários, mas, de alguma maneira, influentes e poderosos -, tem se deixado levar pela sensação de que, ao abrir mão de algumas propostas da plataforma de governo que lhe garantiu a eleição, consiga amortecer impactos desfavoráveis na ação hostil dos adversários. Para muitos correligionários e observadores isentos esse reajuste de posicionamento contempla pressupostos equivocados, podendo influir negativamente em suas pretensões. Mas, de qualquer modo, uma coisa em seu trepidante percurso político é tida como rigorosamente certa. A simpatia popular que envolveu, dentro e fora do país, o primeiro presidente negro da história norte-americana em sua chegada à Casa Branca não mais existe. Se não desapareceu de todo, longe está de permitir a Barack Obama a condição de agregar em praças públicas aquelas multidões entusiásticas, como tantas vezes foi visto, mesmo no exterior, no eletrizante começo de sua caminhada como líder mundial. Naquele instante, cuidemos de rememorar, meio mundo apegou-se à esperança de que a nova e carismática liderança estadunidense fazia-se portadora de uma mensagem de renovação. Revelava-se provida de atributos e vontade política capazes de deflagrarem ações transformadoras essenciais no cenário internacional. Não foi bem assim que as coisas rolaram, para frustração de muita gente, embora não se possa recusar a evidência de serem muitas as vantagens comparativas da atuação de Barack com as de seu antecessor na Casa Branca. E que dessa constatação se deflua naturalmente a ocorrência de razoável melhora no relacionamento da maior potência do mundo com boa parte da comunidade das nações. No que é reconhecido como um dos itens de maior vulnerabilidade em seu desempenho, Obama assegurou enfaticamente que essa excrescência jurídica chamada Guantânamo seria desativada. E, junto com ela, ocorreria também o fechamento das várias prisões secretas implantadas pelo governo de seu país na era Bush, em países do leste europeu que conservaram intactos os esquemas rígidos de segurança dos ignominiosos tempos bolchevistas. Nada disso aconteceu. E a pouca informação que a mídia propaga a respeito desse sistema carcerário irregular, que funciona ao arrepio das próprias leis norte-americanas, continua sendo de molde ainda a preocupar bastante os autênticos democratas e defensores dos direitos humanos fundamentais. Noite dessas, em documentário exibido pela tevê, acompanhei atento o depoimento de Moazzan Begg, um cidadão britânico, que durante três anos, sem qualquer acusação formal, permaneceu preso na ilha cubana arrendada pelos Estados Unidos. Seu relato é comovente e perturbador. Dirigente de uma ONG, sem vinculação política com grupos extremistas islâmicos, foi alvo de denuncismo calunioso, sequestrado em sua residência no Marrocos e levado a prisões secretas em outros países (ele menciona o Marrocos, o Egito e a Síria, entre outros), até dar com os costados em Guantânamo. Ali, foi submetido a torturas inomináveis. Presenciou a morte de presos barbaramente espancados. Nunca ficou sabendo qual teria sido o crime pelo qual pagou dramaticamente preço tão exorbitante. Em determinado dia, sem explicação adicional, sem que tivesse sido julgado por qualquer ato delituoso, devolveram-lhe a liberdade. No momento presente, transformado naturalmente em figura pública, entrega-se a um trabalho de esclarecimento da opinião pública a respeito desses métodos condenáveis de repressão política promovida pelos Estados Unidos no mundo árabe. Denuncia que a repressão nesses termos alvejou centenas de pessoas inocentes. Uma das revelações que faz é de que a população carcerária de Guantânamo chegou a ser de 600 pessoas, mas é hoje de 170. O paradeiro das outras 430 figura na pauta de suas investigações. A inexistência de julgamento, de sentenciamentos, faz supor que, muitas delas, com toda certeza, têm historias pra contar parecidas com a sua trágica odisséia. * CESAR VANUCCI, jornalista
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