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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 17 de Julho de 2010, 13h:12

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

O tempero certo

Escrever e coçar, ao contrário de comer, não é só começar... Em absoluto, não é tão simples e fácil, como alguns podem achar. A teoria na prática foi e sempre será outra muito diferente. A não ser que se queira, o que não é do meu propósito e feitio, tomar o tempo do leitor. Sem ter a preocupação de fazer com que a leitura se torne um prazer. Como uma taça de bom vinho, para combater o frio e aquecer a alma. Ao menos para mim, não se trata apenas de preencher linhas uma atrás da outra até chegar - ufa! - ao fim da coluna. Portanto, externar idéias através da escrita exige preocupação laboral, esforço de artesão da palavra, e certa organização mental. Não se escreve impunemente. No mínimo, há que se fazer uma seleção, o pré-agendamento sobre o que se vai abordar. Em suma, quem se dedica ao ofício de escrevinhador tem que “ralar” a cabeça... A coisa não flui assim tão simplesmente como, por exemplo, sentar no “trono” logo de manhã e esvaziar as tripas. Por não depender somente de reações e gestos naturais, mas necessitando saber juntar, ter algum talento para pegar as letras do alfabeto e fazer com que esses símbolos estáticos e mortos possam traduzir as emoções que perpassam por nossas almas e cérebros, é que considero a escrita a forma mais difícil e complexa de expressão. Dar vida a meros sinais gráficos é sempre um parto doloroso e demorado. Para esse “filho” vir à luz é que são elas! Não é mole, não! Até se achar o chamado fio da meada, encontrar o ponto aonde quer se chegar, muitas vezes não deixa de ser torturante a sensação de sentir a mente ziguezagueando em busca do que se colocar em ordem. Palavra por palavra. Parágrafo por parágrafo, para servir aos leitores como se fosse um prato saboroso a ser degustado. Quem tem esse zelo de servir bem, fica aflito com os preparos. É o meu caso. Daí a preocupação com o tema, o seu “tempero”, que precisa ser escolhido cuidadosamente, até que se transforme em um artigo ou uma crônica. A procura ocorre em função de que, via de regra, o assunto que a gente quer trazer aos leitores está guardado na memória há tempos, às vezes décadas, às vezes ocorreu há instantes, porém, sempre, é preciso esforço intelectual, espremer os neurônios, para buscá-lo nos baú de lembranças arquivadas. Onde se costuma guardar fatos que deixaram marcas em nossos sentimentos. Pode ser o barulho da chuva caindo no telhado da casa que nos abrigou na infância. Pode ser o canto de pássaros no arvoredo do quintal em frente da minha casa – conforme acontece na manhã cuiabana deste sábado ainda friorento -, anunciando o nascer de mais um dia. Pode ser uma pessoa que amamos chegando ou partindo... às vezes para sempre. Pode ser tantas coisas já acontecidas ou por acontecer. Neste sábado que surge ainda sem se ver os raios do sol, trazendo a preciosa luminosidade e o calor que, num milagre de contágio benigno e envolvente, trespassa do ambiente para o comportamento, o jeito de ser da maioria da população cuiabana, tão calorosa e expansiva que é. Mas, espantada pela baixa temperatura, se encolhe e foge das ruas, das calçadas, das praças, das igrejas, “igrejinhas” e dos bares – no que deixa a cidade com uma imagem também “fria” e de abandono. Sinceramente, não gosto de Cuiabá nublada e cinzenta, sem povo indo pra lá e prá cá... Fica irreconhecível a cidade, esta Cuiabá que me abraça e abracei. *MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única. E-mail: [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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