Na noite de sexta fui ver o filme Rock of Ages O Filme, versão cinematográfica do musical da Broadway com a trilha sonora do pop-rock da década de 1980. Na saída do cinema, comentei com minha mulher que o som de algumas músicas soava familiar aos meus ouvidos, porém não conhecia nenhuma canção e muito menos quem eram os seus autores. De pronto, ela me perguntou: - O que você ouvia naquela época? Só Roberto Carlos? A minha resposta foi imediata: - Jobim! O filme com um elenco que conta com Tom Cruise, Catherine Zeta-Jones, Alec Baldwin e Paul Giamati - se passa em 1987 e, naquele ano, eu estava entrando na minha segunda década de vida. Na Cuiabá daquele tempo, o programa de minha geração era: na sexta, após a universidade, encontro no Cosa Nostra, que ficava no final da antiga avenida 31 de Março, hoje Lava-pés. No sábado curtíamos a música no Transas da Vovó, próximo ao Aeroporto. Havia ainda tempo para um pulo em algumas discotecas como Tênis Clube, Panacéia ou Logus. Deve ser num destes locais que ouvi a trilha sonora de Rock of Ages, com músicas do Bon Jovi, Guns & Rose, Journey, Poison e por aí vai. Como deu pra notar, estas canções em nada marcaram minha vida. Já o som de Jobim... Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim já era o nosso grande maestro soberano quando nasci em 1967. Na minha infância, é obvio que tive contato com o seu cancioneiro. Garota de Ipanema já era uma das músicas mais populares no mundo. Mas, foi só com 17 anos que a música de Jobim entrou no meu mundo. Na época, os pais da garota que eu namorava promoviam uns saraus com um músico do interior de São Paulo se não me falha a memória o seu nome era Marissol -, cujo repertório eram os clássicos da Bossa-nova. Daí para eu mergulhar no mundo em que brilhavam nomes como Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes foi um pulo. Com minha alma de jornalista devorei todos os livros, reportagens e, principalmente, os discos com a turma da Bossa-nova. Os requintados discos em vinil que Tom Jobim gravou nos Estados Unidos caíram em minhas mãos: Stone Flower (1970) e Tide (1971), ambos com arranjos do brasileiro Emir Deodato e Jobim (1973), Urubu (1976) e Terra Brasilis (1980), com a batuta do maestro Claus Ogermam. De João Gilberto fui apresentado a seu clássico Chega de Saudade (1959), que começava com a canção-título do disco, composta por Jobim e Vinícius, e que com a batida do violão de João Gilberto é considerado o marco inicial do movimento musical que conquistou o mundo. Neste disco João também canta Desafinado, parceria de Jobim com Newton Mendonça. Daquela época, lembro-me bem de dois discos que foram lançados e que eu muito ouvia. Em 1986, João Gilberto - Live in Montrux, com a gravação de apenas 13 canções feitas no ano anterior na cidade suíça em que se realiza o famoso festival de jazz. Ali esta a minha interpretação preferida de Chega de Saudade, apenas João e seu violão. No ano seguinte, 1987, ano em que se passa o filme Rock of Ages, Tom Jobim lança o álbum Passarim. É uma obra-prima com 13 composições, com destaque para a música que é o título do disco, feita para a minisérie O Tempo e o Vento e Gabriela composta para o filme de Bruno Barreto, que possui o mais belo arranjo vocal que já ouvi em minha vida. Passados 25 anos, posso responder à minha mulher que é argentina e tinha só 13 anos - que aos 20 eu não tive tempo para ouvir o que o pessoal do hemisfério norte estava cantando. Naquela época estava começando a ouvir uma usina de belezas, feita por brasileiros, que ainda hoje é o que mais gosto de ouvir. * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário.
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