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ARTIGO
Sábado, 25 de Agosto de 2012, 13h:49

GUSTAVO OLIVEIRA

O que você ouvia naquela época?

Na noite de sexta fui ver o filme ‘Rock of Ages – O Filme’, versão cinematográfica do musical da Broadway com a trilha sonora do pop-rock da década de 1980. Na saída do cinema, comentei com minha mulher que o som de algumas músicas soava familiar aos meus ouvidos, porém não conhecia nenhuma canção e muito menos quem eram os seus autores. De pronto, ela me perguntou: - O que você ouvia naquela época? Só Roberto Carlos? A minha resposta foi imediata: - Jobim! O filme – com um elenco que conta com Tom Cruise, Catherine Zeta-Jones, Alec Baldwin e Paul Giamati - se passa em 1987 e, naquele ano, eu estava entrando na minha segunda década de vida. Na Cuiabá daquele tempo, o programa de minha geração era: na sexta, após a universidade, encontro no ‘Cosa Nostra’, que ficava no final da antiga avenida 31 de Março, hoje Lava-pés. No sábado curtíamos a música no ‘Transas da Vovó’, próximo ao Aeroporto. Havia ainda tempo para um pulo em algumas discotecas como Tênis Clube, Panacéia ou Logus. Deve ser num destes locais que ouvi a trilha sonora de ‘Rock of Ages’, com músicas do Bon Jovi, Guns & Rose, Journey, Poison e por aí vai. Como deu pra notar, estas canções em nada marcaram minha vida. Já o som de Jobim... Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim já era o nosso grande maestro soberano quando nasci em 1967. Na minha infância, é obvio que tive contato com o seu cancioneiro. ‘Garota de Ipanema’ já era uma das músicas mais populares no mundo. Mas, foi só com 17 anos que a música de Jobim entrou no meu mundo. Na época, os pais da garota que eu namorava promoviam uns saraus com um músico do interior de São Paulo – se não me falha a memória o seu nome era Marissol -, cujo repertório eram os clássicos da Bossa-nova. Daí para eu mergulhar no mundo em que brilhavam nomes como Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes foi um pulo. Com minha alma de jornalista devorei todos os livros, reportagens e, principalmente, os discos com a turma da Bossa-nova. Os requintados discos em vinil que Tom Jobim gravou nos Estados Unidos caíram em minhas mãos: ‘Stone Flower’ (1970) e ‘Tide’ (1971), ambos com arranjos do brasileiro Emir Deodato e ‘Jobim’ (1973), ‘Urubu’ (1976) e ‘Terra Brasilis’ (1980), com a batuta do maestro Claus Ogermam. De João Gilberto fui apresentado a seu clássico ‘Chega de Saudade’ (1959), que começava com a canção-título do disco, composta por Jobim e Vinícius, e que com a batida do violão de João Gilberto é considerado o marco inicial do movimento musical que conquistou o mundo. Neste disco João também canta ‘Desafinado’, parceria de Jobim com Newton Mendonça. Daquela época, lembro-me bem de dois discos que foram lançados e que eu muito ouvia. Em 1986, ‘João Gilberto - Live in Montrux’, com a gravação de apenas 13 canções feitas no ano anterior na cidade suíça em que se realiza o famoso festival de jazz. Ali esta a minha interpretação preferida de ‘Chega de Saudade’, apenas João e seu violão. No ano seguinte, 1987, ano em que se passa o filme ‘Rock of Ages’, Tom Jobim lança o álbum ‘Passarim’. É uma obra-prima com 13 composições, com destaque para a música que é o título do disco, feita para a minisérie ‘O Tempo e o Vento’ e ‘Gabriela’ composta para o filme de Bruno Barreto, que possui o mais belo arranjo vocal que já ouvi em minha vida. Passados 25 anos, posso responder à minha mulher – que é argentina e tinha só 13 anos - que aos 20 eu não tive tempo para ouvir o que o pessoal do hemisfério norte estava cantando. Naquela época estava começando a ouvir uma usina de belezas, feita por brasileiros, que ainda hoje é o que mais gosto de ouvir. * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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