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ARTIGO
Quarta-feira, 09 de Janeiro de 2013, 21h:27

RODRIGO VARGAS

O preço da permuta

No dia 27 de junho de 2011, há exatos 564 dias, uma articulação entre deputados e o governo do Estado fez nascer uma aberração que, embora inócua perante o texto constitucional e mesmo a lógica, causou grande dano e acabou por ampliar o sofrimento das famílias que viviam em áreas da Terra Indígena de Marãiwatsédé. Naquele dia, quando havia tempo de sobra para se buscar um acordo para a remoção gradual dos posseiros (especialmente dos pequenos), nossos políticos decidiram apostar suas fichas em uma proposta de permuta que, sem bem-sucedida, lançaria os índios, após mais de uma década de disputa judicial, em uma área que nunca pleitearam. Não é tarefa fácil surpreender um político. Habitantes de uma selva de cobras-criadas, os mais bem-sucedidos são justamente aqueles que desenvolvem a capacidade de enxergar longe, com anos de antecedência. Quando propuseram a troca, portanto, certamente sabiam, ou devem ter sido alertados por assessores, da impossibilidade prática da proposta. Informes da Funai indicam que a desocupação de Marãiwatsédé é um fato consumado. Relatos do extinto distrito de Posto da Mata confirmam que praticamente ninguém restou na área pertencente aos Xavantes. A fracassada permuta, a meu ver, nunca teve o objetivo de buscar uma saída para uma demanda já derrotada em duas instâncias da Justiça. Estava-se, naquele momento, a buscar uma forma de crescer politicamente com a desintrusão que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por acontecer. Ao jogar para a torcida, porém, colocou-se em segundo plano as graves consequências sociais que se aproximavam e que acabaram por ser concretizar neste início de 2013. Direcionada para a realidade, essa força política poderia muito bem ter mobilizado uma ação conjunta das prefeituras da região. Com a participação do Intermat, áreas públicas alternativas poderiam ter sido viabilizadas. Enfrentada com a responsabilidade, a situação de precariedade vivida hoje pelas famílias desalojadas poderia ter sido amenizada. Essa oportunidade está definitivamente perdida. Iludidos, e sob a influência de lideranças que os incentivavam a buscar o caminho da desobediência civil (conselho este que, felizmente, acabou não sendo seguido), os pequenos se agarraram a uma quimera que, ao final, resultou apenas em desilusão e ainda mais sofrimento. RODRIGO VARGAS é repórter do DIÁRIO ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16968




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