ARTIGO
Sábado, 11 de Julho de 2015, 13h:01
A
A
GAUDÊNCIO TORQUATO
O papa e nós
O papa Francisco continua a fazer alertas e duras críticas ao capitalismo selvagem. Em sua passagem, nesta quinta-feira, por Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, referiu-se ao capitalismo como fonte de exclusão social e destruição da natureza, pedindo mudanças estruturais: os trabalhadores, os camponeses, a Mãe Terra não aguentam. Antes, em sua Encíclica Laudato Si, cuja capa traz a imagem de São Francisco de Assis, prega uma revolução corajosa para salvar o planeta. Afinal de contas, o que defende o papa Francisco? Para começo de conversa, é inimaginável pensar no Chefe da Igreja Católica defendendo o marxismo-leninismo como alguns hermenêutas chegam a sugerir. Nada disso. Ele já chegou a dizer que Marx não inventou nada e que os comunistas roubaram nossa bandeira(Igreja Católica) O que está no foco das acusações do cardeal Bergoglio são os desvios e disfunções que se operam no bojo do sistema capitalista, como a especulação financeira, que desvia a função do capital na produção de bens a serviço da coletividade, nova forma de colonialismo. Ele é contra a opulência, a riqueza a ambição dos poderosos, a promiscuidade com os mais fortes e ricos. Trata-se de um humanista. Que conhece profundamente a realidade latino-americana. Em sua trajetória, conviveu com os mais carentes. Se fossemos creditar ao papa Francisco um escopo ideológico, este seria próximo aos valores de uma sociedade livre, abrigo dos direitos individuais e sociais, e sob a bandeira da igualdade dos cidadãos, todos tendo acesso aos mecanismos da Justiça. Se a social-democracia respira por esses poros, o papa seria, então, um social-democrata. Atente-se: com uma visão profundamente religiosa e humana. Não seria adepto de uma revolução socialista, nos termos do socialismo utópico, nem defensor do neocapitalismo opressor. Seria o pregador por excelência de princípios doutrinários extraídos tanto do socialismo como do liberalismo, adaptados às características de cada Nação. Combinaria com o que pensam nossos atores políticos, partidos e representantes? Vejamos. Na década de 80, Darcy Ribeiro, senador e antropólogo, chegou a pintar a fusão de princípios, mostrando a Leonel Brizola um socialismo moreno como doutrina para o Brasil. O achado linguístico foi esquecido. Todos os nossos presidentes querem tocar nessa orquestra. Fernando Henrique dizia que o autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro mina o espírito da democracia constitucional. Era a acusação que jogava sobre o governo Lula. Os petistas e tucanos exibem, porém, traços de concordância em alguns aspectos. Suas gramáticas, expurgadas de exageros, descrevem abordagens semelhantes na forma de conceber o papel do Estado e a administração do governo. São parentes na concepção da social-democracia. Em 1989, o tucanato definiu no documento Os desafios do Brasil e o PSDB o papel do Estado na condução de programas econômicos e sociais. Em seu início, em 80, o PT considerou o sistema social-democrata inepto para vencer o capitalismo imperialista. Mesmo após a queda do Muro de Berlim, cultivou a velha utopia, até aceitar, não sem resistências internas, a realidade imposta por novos paradigmas. O mundo deu uma guinada ideológica, integrando escopos do reformismo democrático, do realismo econômico e dos avanços do capitalismo. E aí o PT produziu, em junho de 2002, a Carta ao Povo Brasileiro, peça-chave para a vitória de Lula, pavimentando, assim, sua entrada no território da social-democracia. O documento foi decisivo no processo de descarte de dogmas que não resistiram aos ventos da modernidade. O socialismo utópico evaporou-se nos ares da abstração. As ideologias cederam lugar aos ismos da modernidade: pragmatismo, capitalismo (mesmo sob um Estado controlador) e liberalismo social. Os modelos de economias assentadas na solidariedade cedem lugar a programas reformistas, voltados para atender a demandas pontuais e urgentes. As autonomias nacionais passam a se impregnar de ares globalizados. O crescimento desordenado e a qualquer preço é balizado por metas de inflação. Os programas de privatização, tão combatidos pelo PT, hoje fazem parte de suas bandeiras, agora sob a designação de concessões. O nacionalismo, bandeira recorrente na América Latina, abriu espaço para ingresso de capitais internacionais. Gastos a fundo perdido começam a ser regrados por normas de responsabilidade fiscal. O que significam tais reconfigurações? Um modelo de gestão responsável e eficaz, comprometido com crescimento, preservação da estabilidade macroeconômica, atendimento às demandas sociais, enfim, administração equilibrada das relações entre Estado, mercado (capital) e sociedade. Esse é o eixo que o sistema social-democrata tenta aprofundar em seu berço, o continente europeu, sendo visto com simpatia pela maioria dos atores políticos do mundo hodierno. Mas a modelagem continua a corroer alguns eixos, particularmente o peso do capital financeiro e as carências sociais. Este é o alerta do Papa Francisco. Portanto, senhores políticos, atentem para as palavras, cheias de bom senso, do modesto jesuíta argentino. * GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato