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ARTIGO
Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010, 09h:51

PAULO RONAN

O outro lado

Recentemente Alfredo Menezes pontuou na imprensa local um texto sobre nossa mania brasileira de cometer uma exagerada exaltação dos nossos feitos, o famoso “maior e melhor do mundo e/ou da America Latina”, gozação que os argentinos adoram nos impingir. Seria um “complexo de vira latas” Nelsonrodrigueano ao contrário. Concordo e sempre me pego com esta conversa. Lá pelas tantas no texto o mestre inclui a questão dos nossos jogadores que são exaltados e quando na Europa chegam dá uma amarelada e viram reserva do reserva como foi o caso de Robinho na sua recente passada pelo Manchester City. Reconheço que somos por demais apaixonados pelos nossos jogadores. E exageramos. Dias desses um amigo falando que a empresa dele tinha o maior especialista em uma determinada área, e vai elogio quando de repente sai com “resumindo temos o Cristiano Ronaldo do ramo”. Quase virou discussão das brabas eu falando que Kaká é melhor que o português da Ilha da Madeira. Pode? Reunião de trabalho virar briga de futebol?. Sou um apaixonado também, mas farei três ressalvas ao tema no tocante ao futebol deixando de lado a paixão. Primeiro, que nossos jogadores estão indo embora muito cedo. São craques aqui sem qualquer dúvida. Mas chegando lá, o rigor do futebol europeu tira-lhes a criatividade e a nossa ginga. Quanto mais cedo vão mais contundente serão estas influências do jeito de jogar europeu neles. Aqueles gêmeos que foram para Manchester United estão irreconhecíveis. O que é lateral direito virou um daqueles marcadores disciplinados, típico de “perna de pau”. Kerrilson estava crescendo quando saiu daqui. Vi ele jogar no Parque Antártica. Era um jogador em formação. Estava ainda aprendendo. Amarga um banco na Europa e viu seu aprendizado ser interrompido. Segundo, a preparação física. O estilo de jogo europeu exige músculos. Muitos. O futebol jogado aqui exige uma combinação de preparo focado na resistência com leveza. Esta contradição transformou Robinho numa carga de músculos que o impede de executar sua grande jogada que era a partida veloz para cima do beque de forma irresponsável, mas eficaz e eficiente. Ronaldinho Gaúcho foi outro que passou por isso. Kaká nem tanto por conta do seu estilo de armador lento. E por último o posicionamento. Os técnicos europeus não discutem com o jogador posicionamento. Anderson está indo embora do Manchester porque não agüenta mais jogar como volante de contenção, imposição do seu treinador. Lembram dele, um garoto franzino, driblador, peralta e goleador no Grêmio? Virou marcador. Culpa isso o fato de não ter feito carreira na seleção. Está certo. Reconheço que tem casos positivos como o Junior que virou meio campo no Torino na década de oitenta e o próprio Ronadinho Gaucho que era favorecido pelo esquema tático do Barcelona na sua passagem por ali. O mesmo que fora prejudicado pelo encavalamento pela esquerda com Kaká que o técnico do Milan lhe impunha restringindo uma faixa mínima de espaço. Tanto é verdade que a saída de seu companheiro de seleção lhe fez bem e anda jogando bem. As soluções são conhecidas e algumas estão sendo operadas no seio na UEFA, a entidade do futebol europeu. Por exemplo, a limitação progressiva até 2012 a cada time de ter apenas cinco estrangeiros entre seus jogadores em campo. Preocupam a indústria de naturalizações que poderá surgir e a pressão da indústria de compra e venda de atletas. Mas aí é outra discussão. Outra solução é a proibição da saída antes dos 21 anos, não poder ser profissional sem ter sido aqui, etc. São todas soluções conjunturais. A estrutural e definitiva é implantar o profissionalismo na gestão do nosso futebol. Sem a cartolagem patrimonialista que aflige todo clube do Brasil. É triste ver o Fenômeno voltar para nós, cansado e preparando para parar depois de ter encantado a Europa. * PAULO RONAN é economista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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