O mosquito da dengue é nosso velho desafeto. Por volta dos anos 1920, ele se dedicava a transmitir com grande sucesso, a febre amarela nos meios urbanos brasileiros. Nessa época ele, o mosquito, conheceu um inimigo feroz e inesperado, que o colocou fora de combate. Obstinado e até truculento o cientista Oswaldo Cruz enfrentou revoltas da população, mas conseguiu aprovar decretos que lhe permitiam, com seu batalhão de mata-mosquitos, invadir casas, eliminando criadouros e vacinando na marra os moradores resistentes. Foi chamado de inimigo do povo, enfrenou as revoltas da vacina e quebra-lampião provocadas pela ignorância e fanatismo. Graças à sua teimosia e intransigência, o Aedes aegypti foi vencido e a febre amarela expulsa das cidades brasileiras. Hoje só existe a variante silvestre que é transmitida por outro inseto. Mas o Oswaldo Cruz morreu, para a alegria do mosquito, que voltou com tudo para as nossas cidades. Como versátil que é, arrumou outras doenças para propagar e está fazendo o serviço com muita eficiência. Há anos, em tentativas isoladas, aumentando ou diminuindo a intensidade conforme cresce ou decresce o número de doentes, o país vem perdendo a guerra para o Aedes, que agora já transmite 3 doenças. As formas de combate que estamos usando hoje já se mostraram ineficientes. Há 30 anos lutamos contra essa praga sem nenhum sucesso. Antes o diabólico inseto só transmitia a Dengue, agora também, Chikungunya e Zika. Creio que está na hora de reeditar a obstinação, talvez a truculência do Oswaldo Cruz. Mutirões para limpeza de quintais são eventos efêmeros e insuficientes. O poder público pode até limpar o terreno, mas se o morador não der continuidade o trabalho foi em vão. Todo mundo sabe de cor e salteado o que deve ser feito, mas a indolência e irresponsabilidade impedem a execução. Eu tenho uma chácara, onde moram dois caseiros. Um deles está com a mulher grávida. Quando começaram as chuvas este ano chamei-os para dar uma volta na área, mostrando todos os lugares possíveis de criar mosquitos e pedi que ambos mantivessem o entorno livre de água empoçada. Passados mais ou menos dez dias resolvi fazer uma nova vistoria, surpreso achei 5 situações próprias para o desenvolvimento do inseto. De novo alertei-os dos riscos, principalmente para a mulher grávida. Quinze dias depois em nova inspeção encontrei duas vasilhas com água parada. Conclusão óbvia: se eu não consegui, até agora, convencer duas pessoas diretamente expostas à doença, em três ações consecutivas, como os mutirões espaçados de limpeza e campanhas publicitárias vão persuadir milhares de moradores a manter seus quintais limpos? Só há uma forma, eu penso: esquecer o paternalismo de limpar os terrenos para os moradores e exigir que eles próprios façam o serviço, multando os que se recusarem. Precisaríamos de uma lei, um decreto, uma ordem judicial, sei lá, obrigando os cidadãos a liberarem o acesso dos imóveis aos fiscais para verificarem a existência de focos do inseto e que a simples recusa de permitir a entrada já fosse causa de multa. Talvez um valor inicial de 50 reais para os que descumprirem as exigências, dobrada na recorrência, fosse suficiente para estimular a conscientização da população. A cobrança, para evitar gastos maiores, poderia ser feita na conta de água. Claro que o poder público teria obrigação de fazer sua parte, combatendo o mosquito com inseticidas, mantendo áreas comuns limpas, usando a transgenia já disponível e investindo na busca de vacinas. Momentos críticos exigem medidas drásticas. Permitir que milhares de crianças nasçam com microcefalia por medo de enfrentar a população e perder votos é quase um crime. Obs. Circula na internet uma mensagem informando que a Zika não tem nada a ver com a microcefalia e que o surto atual da doença deve-se a uma vacina de rubéola vencida, aplicada pelo governo. Como se vê a ignorância raleia, mas não acaba. * RENATO DE PAIVA PEREIRA, empresário e escritor
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