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ARTIGO
Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013, 20h:25

LAURA NABUCO

O melhor motivo

Andar olhando para o chão, prestar mais atenção em cada barulhinho diferente na casa, ter alguém sempre me esperando ansiosamente depois do trabalho e muita bagunça para arrumar. A rotina definitivamente mudou há cerca de um mês. A mudança mais significativa, no entanto, foi no despertador. Nada de musiquinhas ou toques irritantes. Agora, acordo ao som de um cãozinho preto tentando, sem sucesso, subir na cama. E ele é pontual. Pontualíssimo! Junto com o Boris vieram hábitos mais saudáveis. Nada de dormir até tarde, ele não deixa. Mais passeios pelo bairro, afinal, quem mora em apartamento precisa encontrar um jeito para gastar a energia do bichinho. E quando aquele sentimento de raiva se aproxima por qualquer motivo, lá vem ele com a bolinha pedindo para brincar. Não tem como resistir. Sempre tive cães em casa. A primeira lembrança é da Frida, uma pastor alemão com quem passei a maior parte da minha infância. Logo depois o Fred, seu marido, com quem ela teve sete filhotes. Naquela época pensei que passava pela separação mais dolorida da minha vida, a venda deles. Estava enganada. Foi bem pior quando, por causa de uma mudança – de Recife/PE para Curitiba/PR – tive que deixar ela e ele. Ao contrário do que todo mundo diz sobre dar cães a crianças, a Frida e o Fred não me ensinaram a ter mais responsabilidades. Aprendi, na verdade, que a vida leva aqueles a quem amamos, mas que isso não precisa deixar mágoas ou traumas. É algo natural. Depois deles foram vários outros de todos os tamanhos, raças e cores até que, aí sim, veio a responsabilidade. Foi justamente ela que me afastou deles. Faculdade, trabalho, casamento, problemas, tanta coisa para ocupar o dia que não sobrava espaço para dedicar a um amigo de quatro patas. Na verdade não sobrava tempo nem para mim. Vi-me ganhar peso, perder saúde e momentos de diversão. Até que percebi que sobrava tempo sim. Eram aqueles cinco minutinhos em que se senta no sofá e se fica trocando de canal sem saber o que quer assistir; o tempinho em que, na frente do computador, numa página qualquer da internet (geralmente o Facebook), se rola a barra de rolagem infinitamente sem prestar a atenção em nada; os cinco minutinhos a mais na cama de manhã, lutando contra a preguiça. Hoje mais nenhum segundo desses é desperdiçado. Tenho o Boris, o melhor estímulo do mundo para levantar e aproveitar o dia. LAURA NABUCO é editora de Política do Diário

Edição EDIÇÃO 16968




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