ARTIGO
Quinta-feira, 15 de Abril de 2010, 21h:31
A
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RENÊ DIÓZ
O mato é aqui
É, não adianta. A cidade pode se cobrir de concreto, abrir avenidas, erguer edifícios, abrigar grandes empresas e até contrair problemas de metrópole, mas continua a terra onde cobra atravessa a rua. Devagar que sou, só percebi recentemente que os paus-rodados ainda têm motivos de sobra para acreditar nessa lenda urbana (?) de o pantanal se estender até a Praça Alencastro e cercanias. Até eu tô acreditando. Cuiabá ainda é selvagem, espantou-se outro dia uma internauta, contando numa comunidade do Orkut que a fauna local tem invadido sua casa no Jardim Mariana. Tem foto de serpente em cima do muro, embaixo do carro, e a internauta preocupada com os selvagens à espreita. A queixa gerou um debate online que não deixou dúvida: o mato é aqui. O primeiro argumento vem também da internet. Afinal, já estão dizendo que nem mesmo uma das promessas mais simples da Prefeitura, o programa Internet Para Todos, funciona. Tem pessoal reclamando que não serve nem pra ver clipe da Stefhany no Youtube. Agora quando? A Prefeitura da tal internet carroça é a mesma que não consegue sequer manter um site decente pra si própria. Também parece coisa de mato a falta de opção. Nas folgas, o shopping parece a única diversão segura para a família trabalhadora cujos filhos, à noite, armam o escarcéu para entupir uma praça de cem por cem metros - cara pra dedéu - que alguns ainda chamam de Popular. E, como somos do mato e ainda não atingimos o mínimo nível em educação no trânsito, transformamos aquele gueto deluxe num amontoado de carros. Aí fica todo mundo passando de marcha lenta em frente aos bares só pra ver quem é que está marcando presença nos locais. Puro hábito de gente do mato, do interior, onde todo mundo se conhece e carro importado é mais exótico que bicho de zoológico. Pena que o hábito interiorano de cruzar a cidade a pé não se preserva aqui, pois chegamos ao ponto de não termos sequer calçadas decentes - é um cenário pré-colonial, do qual meu bairro é prova cabal. Há meses, o passeio público é só matagal. Quando chove, vira um lamaçal. Já reclamamos na Prefeitura, mas a resposta é sempre igual! E até nossas obras mais ambiciosas, como a Eta Tijucal, nos fazem estagnar. Já o povo, ciente da aura de atraso que envolve seu município, não se vê em outra situação a não ser a de depositar toda a confiança num evento de alguns dias marcado para daqui a quatro anos. Diferente de uma cidade apenas provinciana - o que teria até um charme - nossa realidade é pior. É a terra onde cobra atravessa a rua; a de um centro urbano abandonado e estagnado no meio de todo o mato que seu Estado lhe provém, um mato sem cachorro. RENÊ DIÓZ é repórter