ARTIGO
Terça-feira, 26 de Maio de 2009, 20h:59
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ALBERTO ROMEU PEREIRA
O jovem e a ferramenta do satanás
Leio notícias em que o Ministério Público e a Justiça proíbem o trabalho do menor de 16 anos. Certamente esses promotores tiveram uma infância abastada, diferente da de seus pais. Foi-se a época em que ter uma caixa de engraxate era uma conquista. Hoje, nem mesmo engraxate existe, pois menores são proibidos de trabalhar. De limpar um balcão, limpar o chão, de ser boy - como se isso fosse uma coisa imoral. Conclamo um Promotor de Justiça ou um Juiz de Direito, a sair às ruas (do centro de Cuiabá mesmo, no bairro Araés, por exemplo) e tomar decisões contra centenas de menores que passam o dia nas ruas perambulando, alguns soltando pipas e depois usando "melzinho". Esses promotores sabem que o Estado é obrigado a dar educação, providenciar ocupação para os menores. E sabem mais ainda que o Estado não tem estrutura. O menor no trabalho está sendo tratado com extremismos. É um risco, é radicalismo. É preciso mais sensatez por parte dos promotores e dos juízes quanto à ocupação dos menores num tempo em que as drogas chegam fáceis e tentadoras a qualquer lugar. Permitir o emprego, o trabalho, com acompanhamento do menor é a forma racional e mais segura conduzindo-o para uma formação ao trabalho, conhecimento prático e - o que é mais importante: tendo no fim da semana, ou do mês, o seu sustento conquistado de forma íntegra, moral e construtiva. Deveriam os promotores sair às ruas, tirar os ternos e deixar os ambientes refrigerados, ficando sob um teto de telha de eternit, com prateleiras vazias e um horizonte sem rumo. Está muito radicalizada a proibição ao trabalho do menor de 16 anos. Muitos desses, por sinal, têm porte físico e fluência verbal de grande aproveitamento na produtividade e caminho para a qualificação. Nos idos de 1983 a 1994 trabalharam comigo em Várzea Grande, nas sucursais dos jornais Jornal do Dia, Diário de Cuiabá e A Gazeta centenas de menores que vendiam jornais pela manhã. Cerca de 600 durante o período. Aquele trabalho pela manhã e o estudo à tarde conduziram os jovens à formação. Uns construíram até casas para os pais como é o caso do Florisvaldo e do Nelson Pereira. Era também a comida na mesa. Todos os dias ao menos 20 menores marcavam presença. Fazíamos um café da manhã e eles saíam às ruas. A cobrança do estudo era prioridade, condição exigida para a manutenção do trabalho. Os pais eram participados das atividades do filho e sabiam onde os meninos estavam. Quando faltavam, os contatos com os pais eram imediatos. E olho no olho, pois telefone fixo era luxo e celular nem existia. Hoje, dessa turma, tem advogado, médico e empresário. Os que têm profissões mais simples, como mototaxi, pedreiro, mestre de obra, lojista, dignificam o que tiveram na infância. E melhor, têm uma história para contar aos filhos. E os de hoje, os promotores e de juízes vão contar o quê aos seus filhos? Hoje, o menor de 16 anos é proibido de vender jornais, que inclui cultura, ocupação e retirada do sustento, e também, abertura de porta para o mercado de trabalho. Mas, a partir dos 16 anos o jovem já mira em outras ocupações. Sem base prática nos 6 anos anteriores, e sem o acesso e formação que o Estado teria de dar a todos (!) a juventude cresce desorientada. Com 16 anos, hoje, a maioria é quase homem. O Estado é muito caro. É muito burocrático. É muito lento na prática, mas prático na mídia. Na proporção, a ação do Estado é pífia. Os limites de vagas nos programas do governo são uma mostra disso. E, ainda com uso político, em que vereador assegura vaga nos programas. Sensatez talvez seja a palavra mais apropriada para tratar da questão do trabalho do menor de 16 anos. Talvez quem trate dos casos ainda não tenha ouvido aquela velha máxima de que mente desocupada é ferramenta do satanás! * ALBERTO ROMEU PEREIRA é jornalista em Cuiabá, trabalha desde os 9 anos de idade e é contra a radicalização da proibição do trabalho do menor de 16 anos e questionador do paternalismo oficial do governo