Nada tenho contra o Carnaval. Os desfiles de escolas de samba, então, acho até bem bonitos. É verdade que não tenho paciência para mais do que cinco minutos daquele baticum cronometrado. Mas devo ser ruim da cabeça e/ou doente do pé. Também não nutro nenhuma antipatia prévia a ações de marketing público que ajudem a divulgar belezas naturais ou atrativos históricos de uma localidade. Ainda mais se o retorno potencial é superior aos gastos. Ocorre que decisões governamentais (em especial, aquelas que envolvem dinheiro público) não podem ser avaliadas longe de seu contexto. Uma prefeitura com suas contas em dia, e serviços públicos com um padrão mínimo de qualidade, pode muito bem aproveitar uma sobra orçamentária para alardear seus predicados mundo afora. O atual cenário político-administrativo de Cuiabá, porém, não permite dar nota positiva ao acordo milionário firmado entre a prefeitura de Cuiabá e a Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro. Recentemente avaliada como a pior capital do país em termos de gestão fiscal, Cuiabá tem uma prefeitura com suas finanças em frangalhos. Dívidas e baixa arrecadação moldam um orçamento apertado, no qual sobra pouco ou nada para investir. O resultado deste cenário caótico está nas ruas, escolas, no remendado pronto-socorro, e não acho que tenha sido outro o motivo para a reação negativa ao anúncio do contrato assinado pelo prefeito Francisco Galindo. Estou afirmando que o R$ 1,6 milhão entregues à Mangueira serviriam para resolver todas as demandas da cidade? Não, a cidade não ficará muito pior sem esse dinheiro. O que discuto é o que esse episódio sinaliza. A gana em assinar o contrato, a urgência em aprovar os recursos na Câmara, a mobilização dos vereadores para tornar real a empreitada, nada disso se repete quando o que está em jogo é o que realmente interessa à população. O ímpeto é outro! O Carnaval do Galindo, por mais bem-intencionado que possa ser, não faz mais do que prorrogar essa desumana quarta-feira de Cinzas administrativa. Esse samba atravessado do que é essencial. RODRIGO VARGAS é jornalista e repórter especial do Diário
[email protected]