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ARTIGO
Quinta-feira, 10 de Julho de 2008, 21h:07

ADILSON ROSA

O ensino de faz-de-conta

O governo federal a cada dia surpreende o país quando o assunto se trata de educação. E sempre para pior. A pérola da vez é a cota de 50% das vagas nas universidades públicas a serem preenchidas por alunos oriundos das escolas públicas. Nem precisa dizer que educadores e especialistas estão prevendo o caos diante de tanta insensatez de autoridades que deveriam, de fato, enfrentar de frente o problema – que até hoje é empurrado com a barriga. Cotizar uma universidade pública é como querer acabar com a inflação através de um congelamento de preço – o que parecia óbvio acaba quadruplicando o problema. Um aluno de escola pública não entra para a universidade porque não obtém a nota mínima. E não aprendeu o básico porque a escola pública não ofereceu ensino de qualidade, o que não é uma novidade pra ninguém. Quem barra o aluno de escola pública numa universidade pública é o próprio governo. Através de mais uma brilhante idéia de nossas autoridades, as universidades públicas terão dois tipos de alunos – os com conhecimentos mínimos e os sem os conhecimentos mínimos. Dá até calafrio imaginar um estudante de escola pública fazendo medicina sem saber o básico. Que tipo de médico vamos formar? Aliás, não formaremos. Acredito que terão que esforçar muito, voltar a ter noção básica de química e biologia. Aliás terão que voltar ao início. Até agora, existe uma cota para negro nas universidades, mas aí temos a questão das notas. Tem muitos afro-descendentes que estudaram em escola particular, fizeram cursinhos e obtiveram nota suficiente. Agora, o problema é que nem todos terão notas suficientes para prosseguir a graduação. Essa lei poderá ser o início de uma nova proeza do atual governo federal – acabar com a qualidade de ensino nas universidades federais. De 40 vagas oferecidas pela UFMT, por exemplo, teremos 20 estudantes que vieram de escolas públicas. O corte da nota das particulares será próximo de 9,0. Das públicas, acredito que seja metade disso. Pelas últimas avaliações do MEC, a escola pública de ensino básico só não está pior por falta de espaço. Minto. Pelo que o governo investe na área, está bom demais. Os professores fazem milagres com o que não têm. Vale ressaltar que não é problema do aluno. Ele quer ensino de qualidade e o governo faz de conta. Seria o mesmo que você encomendar uma Ferrari e o vendedor te entregar um Fusca e garantir que é a mesma coisa. Você sabe que não é. ADILSON ROSA é jornalista

Edição EDIÇÃO 16962




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