ARTIGO
Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007, 18h:58
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EVANICE M. MARÇAL VIEIRA * ELERSON G. JARDIM JUNIO
O dente pode matar
A saúde bucal, hoje vista pela sociedade mais como finalidade estética, precisa ser revista de forma mais ampla. Sabe-se que um sorriso bem apresentado, com dentes alinhados, pode ser considerado porta de entrada para um novo emprego ou a concretização de negócios, além de facilitar a aproximação das pessoas, dentre outras vantagens. Porém, na população brasileira, principalmente entre as classes economicamente menos favorecidas, a saúde bucal fica para planos futuros, e toda sorte de doenças bucais pode ser observada, como dentes cariados, quebrados e doenças na gengiva e no osso que sustenta o dente (periodonto). O dente pode matar..., mas matar quem, como e por quê? Essas doenças estão associadas a microrganismos, particularmente bactérias, que se multiplicam rapidamente e levam à destruição dos dentes e demais estruturas bucais. Quando se aproximam de vasos sanguíneos, concomitantemente causam a destruição da coroa do dente (parte branca visível na arcada dentária), destruindo a parede desses vasos e penetrando no interior dos mesmos. Dentro da circulação sanguínea, as bactérias podem continuar se multiplicando e se espalhar por todo o organismo, uma vez que pegam carona no sangue. O maior perigo acontece quando estas bactérias chegam até o coração de um indivíduo que possui algum tipo de doença no coração, como os portadores de próteses valvares ou condutos sistêmico-pulmonares, ou pessoas que já tiveram infecções nas válvulas cardíacas. Outras situações, porém de menor risco, compreendem a maioria das cardiopatias congênitas acianóticas, disfunção valvar pela doença reumática dentre outras situações também consideradas de risco. Algumas dessas condições são freqüentes em nosso meio. No revestimento interno e válvulas do coração ou no material protético do mesmo, os microrganismos formam colônias e com isso levam ao desenvolvimento da doença denominada de endocardite séptica, geralmente causada por bactérias, principalmente as da boca. Com este diagnóstico confirmado, o paciente deverá estar sob os cuidados do médico cardiologista e equipe hospitalar, sendo que deverá permanecer internado durante algum tempo para fazer o tratamento correto com uso de antibióticos em altas doses. Considerando que as bactérias se multiplicam rapidamente nos principais órgãos do corpo humano, o diagnóstico precisa ser rápido e o tratamento iniciado imediatamente, para evitar a morte do indivíduo. Neste caso, o dente pode matar. Qualquer procedimento odontológico nestes pacientes que promova sangramento, por menor que seja, deve ser realizado somente depois de cuidado terapêutico profilático, com uso de antibióticos. Além da manipulação odontológica, como tratamento de canal (endodontia), extração dentária, colocação de implantes, procedimentos periodontais (cuidados com o osso que sustenta o dente), bem como outros tipos de cirurgias ainda que não odontológicas, podem facilitar a disseminação desses microrganismos na corrente sanguínea do paciente predisposto a ter endocardite séptica. Diante deste fato, se faz necessário maior atenção à saúde bucal da população, de âmbito municipal, estadual e nacional, com programas que despertem na comunidade maior interesse para com o problema. É importante que saibam das conseqüências quando este cuidado é negligenciado. Sabe-se que muito se faz, porém, sempre há ainda muito por fazer, pois o dente não é um elemento isolado no organismo humano, ele faz parte de um corpo, logo, se está em sofrimento, todo o corpo padece. * EVANICE MENEZES MARÇAL VIEIRA é doutoranda em Odontologia na Unesp/Araçatuba e Profa. Mestre da Universidade de Cuiabá-Unic/MT * ELERSON GAETTI JARDIM JUNIOR é professor doutor, Faculdade de Odontologia de Araçatuba/Unesp