Existia a pergunta quando este século vai começar?. Para a história nem sempre o primeiro de janeiro do primeiro ano marca o começo do século. Cada um tem sua marca e ele começa de fato quando esta aparece. É unânime que o século que passou começou no dia 17/10/1917, dia da Revolução Russa. Este é o dia em que começou a guerra ideológica que o carimbou. A partir daí o bicho pegou. A revolução socialista vinha sendo tentada com maior intensidade na Alemanha, no rescaldo da Revolução Francesa, e na Rússia. O fracasso de uma, gerou Hitler; na outra, Napoleão (distantes, temporalmente, mas conceitualmente próximos). E na Rússia deu certo. A Rússia, sempre a Rússia. A partir daí o mundo nunca mais foi o mesmo. Veio a crise do capitalismo na década de 30, a Segunda Guerra, o Plano de Recuperação da Europa, o New Deal americano, a bomba atômica, as guerras de independência na África, a Guerra Fria etc. Tudo isso acabou em 1990 com a queda do muro de Berlim e a transição da bipolaridade para a hegemonia militar americana com multipolaridade econômica. E daí para o surgimento dos blocos econômicos, a tal globalização, ou como gosta de falar meu amigo Jota Alves, a planetização. E volto ao começo. Existia a pergunta: quando esse século vai começar? Acabou de começar no dia 02 de fevereiro deste ano quando foi anunciado pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) seu relatório final dos estudos elaborados interdisciplinamente por mais de 80 cientistas do mundo inteiro. Foi um alerta vindo de uma fonte segura, honesta e bem intencionada. Existia um certo clima preparatório para desmoralizar seu anúncio. Eu fui um que caí nessa conversa e supervalorizei um texto que recebi de uma multinacional do ramo de petróleo. Estava em inglês e eu mandei para outros lerem e me ajudar. (Meu inglês continua suficiente para pronunciar as providenciais palavras Can I have a beer please, so iced. E olhe lá). O relatório é devastador e faz alertas duros para nós, os humanos. O greenpeace também preparou um relatório mais duro ainda e complementar ao dos cientistas. Ambos vão fundo na necessidade de reduzirmos a emissão de gás carbono. Os gazes são cumulativos, igual a contabilidade comercial, o saldo final das contas de 31 de dezembro é o saldo inicial de primeiro de janeiro. Vai acumulando o que nos obriga a ajudar a natureza a dissipar este estoque lá no céu. E tem uma só maneira de fazer isso: emitindo menos. Acontece que não sabíamos que este dilema vinha tão rápido e nos pegou de calças curtas. A matriz energética do mundo continua assentada nos combustíveis fósseis, o velho petróleo e o carvão mineral. E ainda por cima o crescimento econômico acontece com maior intensidade em lugares emergentes da terra com pouco controle social e menor educação ainda, combinação perfeita para aumento do seu consumo. O investimento nas chamadas alternativas limpas vive sendo ameaçado pela reação da velha indústria petroleira que pode reagir com baixa nos preços. E o próprio aumento do preço do óleo pode viabilizar sua exploração em regiões como o Alasca americano e a Sibéria russa e aí sua própria indústria vai passar a administrar o investimento concorrente com o movimento de gangorra na sua curva da oferta e da procura. Os biocombustiveis enfrentam a questão ética do dilema, falso ou não, da produção de alimentos e a chantagem dos grandes consumidores utilizando as chamadas salvaguardas sociais como barreiras não-tarifárias. Como se sabe, os EUA preocupam muito com a saúde do cortador de cana de Ribeirão Preto. Só tenho dúvidas para sairmos desta. * PAULO RONAN é economista
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