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ARTIGO
Sábado, 19 de Dezembro de 2009, 01h:03

LORENZO FALCÃO

O calote no artista

Há alguns assuntos que não podem morrer. Que precisam ser esclarecidos e que a sociedade precisa ficar sabendo. O exemplo mais flagrante nesse sentido e sobre o qual me manifesto agora diz respeito ao calote que está sendo aplicado no artista Wlademir Dias-Pino. Um carioca que viveu durante várias décadas em Cuiabá e que se apaixonou pela capital mato-grossense. Mas que acabou retornando ao Rio de Janeiro, onde reside atualmente. Algumas pautas são complicadas para ser desenvolvidas como matérias, propriamente ditas, principalmente quando requerem opiniões pessoais mais incisivas. É o caso deste assunto, um descaso com o qual o poder público do município vem tratando um artista que é referência mundial, especialmente no que se refere às artes visuais. Certa vez, longa jornada noite adentro, pesquisando sobre Dias-Pino na internet, achei uma declaração, nada mais nada menos, do que de Octavio Paz, escritor e diplomata mexicano, ganhador do Nobel de Literatura em 1990, classificando Dias-Pino como principal poeta visual do mundo. Pois é. E o nosso Wlademir vem, justamente, aqui em Cuiabá, receber um calote da prefeitura da cidade que ele tanto ama. Não é justo. Não está direito. Sinto-me um pouco culpado, e dói-me dizer isto, porque fui eu quem passou o contato do poeta aos emissários da prefeitura que zarparam rumo ao Rio de Janeiro em busca do poeta para solicitar uma encomenda, que é aquela estátua/escultura/instalação/homenagem ao Silva Freire, na Praça 8 de Abril, aquela que fica em frente ao Chopão. Wlademir já passou dos 80 anos e ainda tem uma jovialidade de fazer inveja. Tem uma paciência do tamanho do mundo ao explicar seus conceitos mirabolantes e visionários a respeito das artes e de outras coisas culturais. “Se você não está entendendo, não tem importância... Daqui a 15 anos você vai entender”, costuma dizer ele aos desavisados sobre tais temas. Mas que tristeza. Que vergonha, ver a forma como o poder público trata um artista dessa envergadura. E andam dizendo que ele doou a tal obra de arte à prefeitura. Não acredito, definitivamente. Ouvi negativa sobre isso de sua própria boca. Em mais de 30 anos de amizade com ele, nunca soube de uma mentira sua. O que sei e o que todos sabemos é que a ‘mentiraiada’ e as promessas vãs costumam mesmo é habitar o território da politicagem. E vou ficando por aqui. Solidário a Wlademir, deixo o registro de minha indignação contra esse vergonhoso calote. LORNZO FALCÃO é editor do Ilustrado do Diário

Edição EDIÇÃO 16967




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