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ARTIGO
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014, 20h:21

RENATO DE PAIVA PEREIRA

Nunca houve o primeiro homem

A nossa capacidade de aceitar a aleatoriedade é muito pequena. Para todas as coisas tentamos criar uma explicação como se para todas houvesse uma. Convencer-nos de que estamos no mundo sujeitos a todos os perigos que ele tem nos aflige. Para amenizarmos essa angústia criamos os deuses que nos livram de todo o mal e acompanham nossos passos dia e noite. Desses deuses não exigimos muita competência e os desculpamos sempre que descuidam um pouco de nós. Relevamos por medo, claro, temerosos de uma punição maior. Assim é que damos “graças a Deus” quando saímos vivos, ainda que, muitas vezes, com muitas sequelas, de algum desastre, sem percebermos que se Deus tem o poder e a vontade de nos salvar, teria também a capacidade de evitar o acidente. Também agradecemos o “milagre” quando escapamos com vida de um acidente onde todos os outros morreram sem questionar essa súbita preferência divina por nós. Somos seres tão angustiados e ao mesmo tempo tão pretenciosos que não aceitamos com facilidade a ideia de que a vida surgiu aleatoriamente e que depois dela não tem mais nada. Preferimos acreditar que um arquiteto maravilhoso nos projetou e deu-nos a vida e que ao fim dela anjos e arcanjos com cítaras e harpas brilhantes, em melodioso coro, nos aguardam à entrada da mansão celestial que vamos habitar ad eternum. Todos os povos do mundo tem um mito para explicar sua origem. O nosso mito vem das tribos hebraicas que habitavam o oriente médio. O Deus deles teria criado o homem do pó da terra e lhe soprado a vida pelo nariz. Este vivia com a companheira no paraíso até que uma serpente malvada os convenceu a desobedecer a Deus, causando sua ruína. A ciência afirma que nunca houve um primeiro homem, primeiro leão ou qualquer outro animal da terra. A vida originou-se em circunstâncias ainda não bem entendidas e foi evoluindo, transformando-se em milhares de espécies diferentes lentamente por milhões de anos e continua em constante transformação, conforme a pressão evolutiva. Richard Dawkins no seu livro A Magia da Realidade (Cia das Letras) explica esse processo lento de transformação, argumentando que não é difícil entendê-lo. Basta, ele garante, observarmos as mudanças graduais que nos acontecem. Um bebê transforma-se em criança, esta em pré-adolescente, que evolui para adolescente, tornando-se depois um jovem. Depois vira um adulto que vai ser um velho. Cada fase destas começa e termina muito sutilmente. Ninguém percebe o dia exato que se tornou jovem ou adulto. Não é possível olharmos no espelho um belo dia e dizer “hoje tornei-me outra pessoa”. Assim um homem que é um primata, nunca vai saber o dia ou século que deixou de ser, junto com o chimpanzé, uma espécie única, para ser tornar um homo sapiens. Em algum momento depois dessa separação, já com alguns laivos de pensamento, criamos um deus para nos proteger, e, ainda, se formos bonzinhos, ganhar a vida eterna. A inteligência e experiência nos ajudam a antever os perigos para evitá-los, mas não nos livra da aleatoriedade a que todos estamos sujeitos. Há coisas que estão absolutamente fora de nosso alcance e tentar explicá-las é pura perda de tempo. Aleatoriamente viemos ao mundo. Aqui aprendemos a nos proteger de muitos perigos, mas nunca vai ser possível nos resguardar de todos. Sempre haverá um carro desgovernado, um avião ou uma bala perdida para mostrar que é impossível vivermos sem riscos. * RENATO DE PAIVA PEREIRA - empresário e escritor [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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