ARTIGO
Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010, 19h:11
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MARIANNA PERES
Números
Até mesmo a ciência exata dos números, está sujeita àquilo que se pretende, se quer ou se pode mostrar. Governos e instituições são experts em mostrar somente o que se quer. A exatidão dos números, dependendo da ótica de sua interpretação e de sua apresentação, pode não traduzir com fidelidade a realidade, o cenário ou o momento. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) parece saber utilizar, e muito bem, os números. No final da semana passada, o mais esperado dos relatórios que mostra o desenvolvimento da safra norte-americana, em pleno início de colheita, surpreendeu o mercado ao elevar e não reduzir a produtividade e produção da soja. As lavouras na reta final sofreram algumas adversidades que fizeram estragos consideráveis, principalmente, nos dois estados campeões na produção do grão no país: Illinois e Iowa, sendo este último o maior produtor. No primeiro, o estresse hídrico das plantas revela a intensidade da estiagem. Nenhuma gota d´água foi registrada durante o mês de agosto inteirinho. Em Iowa, o problema que vem tirando o sono é a morte súbita, doença fúngica que como o nome diz, derruba produção e produtividade. Quem viu as lavouras de perto e quem conversou com os sojicultores locais, como eu, sabe que alguma coisa, está fora do lugar. Sabe que os números estão desproporcionais e que eles ignoram a realidade dos maiores produtores daquele país. Produtores em Iowa me afirmaram sem qualquer temor, que este é o pior dos últimos 40 anos para as lavouras e que estão assustados com a morte súbita. Porém, o mercado também parece ter ignorado as estimativas pra lá de positivas do USDA, afinal, soja e milho não param de atingir cotações altas e isso caiu como luva ao sojicultor mato-grossense que pela primeira vez, em muitos anos, se dá bem com a volatilidade do chamado mercado de clima, que todo ano, nesta mesma época, é imposto pelos Estados Unidos. É como se o mundo das commodities (leia seus negócios) parassem para ver qual o rumo da safra do Tio Sam e assim, saber se compra mais e com pressa, ou se relaxa e espera o produto bater à porta. Segundo o USDA, os 93,4 milhões de toneladas estimados em agosto deram lugar para um número mais robusto, de 94,8 milhões de toneladas. O incremento se sustenta na elevação da produtividade que passou de 49,3 sacas/hectare para 50,1. Só resta aguardar pelo relatório mensal de outubro e ver se os problemas foram enxergados e contabilizados pelo Departamento, que exerce forte influência Bolsa afora. * MARIANNA PERES é editora de Economia