ARTIGO
Terça-feira, 14 de Maio de 2013, 20h:31
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*PAULO LEITE
Novos guetos
Assim nascem os tiranos... Com medidas aparentemente simples e objetivas, impõem sua autoridade, cultivam o ódio contra os políticos e alimentam a tensão entre grupos sociais. Fazem de ideias prosaicas e banais verdadeiros movimentos de restauração da ordem e da autoconfiança da comunidade. Sentem-se ungidos e, com isso, desprezam o senso comum e as lições da história. Assistimos, neste momento, mais uma ação do prefeito Mauro Mendes em direção a este modelo. Ao propor uma gestão diferenciada para os bairros que mais contribuem com o IPTU, ele reforça o sintoma de que sua administração percebe apenas o fato concreto, mitigando o imponderável e os efeitos sociais da discriminação contra os inadimplentes. Mendes, com sua proposta pragmática, está criando o inevitável Apartheid cuiabano, dividindo nossa sociedade em duas categorias distintas: a dos bons e a dos maus pagadores de tributos. Negando obras e serviços eficientes para os devedores, Mauro Mendes também institui o cidadão de segunda categoria em nosso território. Sim! Ele vai prejudicar o pequeno contribuinte, aquele que, às vezes, é obrigado a optar entre a conta do plano de saúde e a quitação de impostos. Governar significa estender a mão a quem precisa, não para esbofeteá-lo, mas sim para apoiá-lo em suas carências. Quando as obras forem desviadas de um bairro para outro, os vizinhos se entreolharão desconfiados... Quem entre nós não pagou o IPTU? Perguntarão a si mesmos... Isto vai gerar um inevitável desconforto entre os comunitários. Sob o disfarce de prêmio, Mauro quer punir uma parcela da sociedade. Agindo desta maneira, ele vai construir guetos em nossa cidade, zonas perpétuas de miséria, ilhas do abandono. Mauro foi eleito pela maioria da população. Ele não pediu atestado de regularidade fiscal para seus eleitores; ao contrário, acenou com propostas modernizadoras e inclusivas. Agora, aparece com medidas punitivas e discriminatórias. Soluções aparentemente singelas - repito, mas de elevado teor político, de grande poder corrosivo e de resultados imprevisíveis. Mauro deve recostar a cabeça no travesseiro da sabedoria e pensar bem no que vai fazer. Aliás, deve refletir mais e falar menos... Mauro não é mais um mero líder empresarial, converteu-se em espelho de toda uma comunidade e suas declarações deveriam refletir os sentimentos de uma geração, e não apenas ideias solitárias. Pagar tributos em dia é um dever do cidadão. O errado é a gestão pública, sob qualquer pretexto, discriminar os devedores. Em tempo: Mauro Mendes, que tanto critica o ex-prefeito Chico Galindo, deveria (por uma questão de honestidade política) dar crédito às obras concluídas na gestão do antecessor, hoje largamente exploradas na propaganda oficial da prefeitura cuiabana. Na longa jornada que tem pela frente, Mauro não pode procurar atalhos, às vezes mais oblíquos e penosos que a trilha original; mas sim caminhar resoluto e imperturbável pelo trajeto que o eleitor traçou para ele... Uma Cuiabá mais moderna, eficiente e, sobretudo, mais humana; pelo menos foi o que Mauro Mendes sinalizou na campanha eleitoral. * PAULO LEITE é jornalista e escritor