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ARTIGO
Terça-feira, 05 de Agosto de 2008, 22h:35

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Novas crianças e velhas esperanças

Há algumas semanas, a Rede Globo vem apresentando a nova edição da velha "Criança Esperança". Sábado (02/08) foi o ápice. Toda vez que isso ocorre, penso em Bartolomeu Campos Queirós: autor do livro infantil Onde tem bruxa tem fada. Trata-se de um texto corajoso, escrito no final da ditadura, tempo em que pensar ainda era proibido. Das sutilezas do livro (crítica à censura e à composição do poder no capitalismo), destaco o descrédito em relação à esperança. Naquela narrativa, lê-se que "a esperança é uma coisa que sempre espera e nada faz". Além disso, é dito também que, os poderosos, quando percebem que "uma esperança começa a morrer, eles fabricam uma nova". Tais reflexões contrariam a lógica da campanha em curso na TV. Mais: opõe-se a um dos elementos centrais da cultura brasileira; ou seja, diante das dificuldades do presente, apostar num futuro que insiste em não chegar à maioria. Na essência, é uma herança do conformismo, oriundo da cultura judaico-cristã. Sabedores disso, ideólogos do sistema - ligados à mídia - trabalham com perfeição o processo de ilusão popular. No bojo de suas criatividades, além da programação regular, estão as campanhas movidas pelo trabalho voluntário. Com maquiagem humanitária, tais campanhas pontuais são de uma perversidade social sem dimensão. Dentre todas, dada a abrangência já adquirida ao longo de 23 anos, a da Rede Globo tem sido insuperável. Assim, por meio do voluntariado cristão - movido à base da esperança - a Globo acerta vários coelhos com uma única cajadada. Ei-los: a) passa ao público a imagem de empresa generosa; b) reforça a cultura da esmola, aliviando o Estado da responsabilidade por implementação de políticas públicas; c) mantém altos picos de audiência, sustentada por milionários contratos comerciais. O lucro que a empresa tem em cima da miséria alheia é de pisotear, p. ex., qualquer campanhazinha de voluntários de um "McDia Feliz"!!! Não bastassem esses problemas que a tal da "Criança Esperança" causa, há ainda um outro elemento inquietante: a presença do Sr. Renato Aragão à frente disso. Embora eu nada tenha contra o cidadão em si, tenho tudo contra sua personagem Didi, presente em programas humorísticos, veiculados ao público infantil há décadas. O personagem de Aragão - quando dividia as cenas com Dedé, Mussum e Zacarias - foi imbatível na exposição de preconceitos contra homossexuais, negros e mulheres gordas. Nos programas atuais, parece que outros personagens correspondem àqueles antigos Trapalhões. Seja como for, o desrespeito aos gays apresentava-se, centralmente, no contraponto com Zacarias, personagem de gestos afeminados. Às vezes, Dedé se prestava ao mesmo papel. As mulheres obesas eram ridicularizadas quando postas lado-a-lado a mulheres mais jovens e esguias. Com isso, despertava-se também a sexualidade precoce na gurizada. Para conseguir a mulher mais deslumbrante, Didi trapaceava os demais, deixando-os com caras de babacas. Assim, o personagem de Aragão "ensinou" a criançada brasileira a ser dissimulada e trapaceira. Didi, com certeza, ajudou na (de)formação de algumas gerações. Fez mais: reforçou a lei de Gérson, ou seja, gostar de levar vantagem em tudo. Certo?!? Por sua vez, eclodia o preconceito contra o negro, quando Didi contracenava com Mussum. Fosse hoje, os movimentos afro moveriam constantes ações judiciais, buscando reparação de danos. Vale lembrar: Mussum vivia com uma garrafa de cachaça à mão, fazendo apologia à bebida. Aquilo era desrespeitoso incentivo à criançada – para quando se tornasse jovem e adulta - a beber o "mé" até cair. Parece que muitas ex-criancinhas caíram nas (des)graças dos infelizes trapalhões!!! Por tudo isso, como cidadão e profissional da educação, lamento tanta trapalhada na TV brasileira. Tanta campanha em vão. Tanta dissimulação. Tanto cinismo. Haja paciência! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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