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ARTIGO
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009, 21h:30

MARIANNA PERES

Nota zero

Não há nenhum outro adjetivo publicável para externar a minha revolta com o posicionamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente por seu presidente, o mato-grossense Gilmar Mendes. Excelentíssimo, eu tenho vergonha por vê-lo na condição atual de maior representante deste Estado maravilhoso e cheio de vocações. Vergonha e indignação pelos seus argumentos e por isso: nota zero. O estrago da decisão do STF, exceto do ministro Marco Aurélio, terá impactos a longo prazo e coloca toda uma categoria, que dispensou anos aos estudos, em xeque e em descrédito. O argumento utilizado pelo ilustre magistrado sacramentou a tragédia, ao comparar um bom jornalista a um bom cozinheiro ou costureiro, nada contra estas profissões, mas por que ele mesmo não estendeu à fatídica analogia ao Direito? Afinal, basta-me alfabetização e disposição para decorar leis e inteligência para interpretá-las e pô-las em execução em qualquer petição ou Tribunal de Júri. Imagina: Marianna Peres, juíza, ministra do STF e ganhando mais de R$ 25 mil por mês? O piso de jornalista vira troco! A falta de diploma achatará salários que há muito tempo foram literalmente mastigados pela inflação. A não-obrigatoriedade do diploma vai abrir logo, logo um mercado paralelo às empresas de comunicação. Neste mundo capitalista, a nova regulamentação será a brecha para os empresários encherem suas redações e pagarem menos. Quem precisar de emprego vai se sujeitar, com diploma ou não. Quando ainda cursava a UFMT, entre os anos de 1994 e 1998, o piso de jornalista de R$ 1,050 era o maior do Brasil. Onze anos se passaram e o valor recebeu reajuste de cerca de R$ 100. Na prefeitura de Várzea Grande, jornalista concursada, como sou, recebo salário bruto de R$ 829,70. E ainda tem ministros querendo nos prejudicar ainda mais. Nada contra os colegas de profissão que atuam há anos sem o diploma. Aliás, formaram-se na prática e têm experiência que nós, aos sairmos da faculdade, não temos. Esses devem ser amparados sim e habilitados definitivamente ao exercício. O que não pode é o retrocesso. Afinal, diploma significa qualificação e justamente quando a lei de mercado exige qualificação, o STF escolhe a contramão das tendências. Na faculdade, além das técnicas de jornalismo, temos aulas de filosofia, psicologia social, antropologia, economia e política. Se a moda do STF pegar, a não obrigatoriedade pode ser estendida ao publicitário, afinal, para criar, basta ser criativo, né? Mas, sabemos que é preciso além de criatividade, técnicas e muito, mais muito conhecimento. Para a maioria de nós, o diploma é indicador de conteúdo, salvo algumas exceções, válidas inclusive, para o Direito. Maçã podre tem em todo lugar! MARIANNA PERES é jornalista

Edição EDIÇÃO 16962




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