Escrevi dias atrás Aos que amam esta terra indignado com a falta de respeito e consideração àqueles que seguraram até o último segundo a lamparina para que Cuiabá não mergulhasse nas trevas. Uns dizem que há méritos enormes em cima dos que para cá vieram ajudar-nos a colocar nossa capital no patamar em que hoje se encontra. Concordamos, o que não se pode esquecer é a raça, a coragem e a perseverança do bugre cuiabano acossado por falta de luz e água, falta de alimentos (para os menos avisados, nosso grande comércio era feito através dos rios Cuiabá e Paraguai, com a cidade de Corumbá e os países platinos), com dificuldades quase intransponíveis de se atingir centros como Rio ou São Paulo, comunicação, nem se fala, para se transmitir algo daqui só utilizando os rádios amadores (prestaram serviços inestimáveis ao nosso povo) e mais tarde a Radional. Com isso a tocha que impedia nossa querida cidade de mergulhar nas trevas, se revezava de família em família, de mão em mão, de muro a muro trazendo esperança de melhores dias. Aparecia um destemido e abria uma padaria; outro, um comércio de tecidos; outro, um bar; outros, com vôos maiores, traziam para Cuiabá uma representação comercial. Seus filhos, dia a dia retornando depois de sacrificados anos de estudos, geralmente na cidade do Rio de Janeiro, para aqui cuidar do seu povo e de sua gente. Uns, advogados; outros, médicos; outros, engenheiros; outros, dentistas, porém todos preocupados em manter a tocha acesa, que seus familiares, com tenacidade, impediram que se apagasse. Gratificado por dois e-mails que recebi de grandes amigos, um residindo aqui e outro no Rio de Janeiro, foi que vi a enormidade da minha revolta. Não tenho autorização de revelar seus nomes, mas o que reside aqui, escolhi-o para meu padrinho de casamento. Naquela época se escolhiam padrinhos de casamento pessoas que tivessem sob todos os aspectos, condições éticas e morais nas quais o afilhado pudesse se espelhar, e tomá-las como parâmetro para sua vida. Diferentemente de hoje, não se considerava sua conta bancáia. Eu soube escolher. Revolta sim, quando vejo essas pessoas que contribuíram decisivamente para que as trevas definitivamente aqui não se instalassem, esperando ter seu nome um reconhecimento do poder público, em detrimento daqueles que nunca aqui puseram seus pés, como é o caso de Sérgio Motta e de alguns que até busto têm na cidade, sem que nunca tivessem feito absolutamente nada por merecer. Tenho, com enorme dificuldade, tentado controlar minha indignação quando por avenidas modernas passo e vejo mansões nelas sendo erguidas, sem que seus proprietários ao menos saibam quem é o cidadão que lhe empresta o nome. Só posso conceber tal homenagem a um momento crucial de TPM do seu autor! Aos meus dois amigos, o do Rio e o de Cuiabá, este fardo de responsabilidade e de ingratidão, recai sobre muitos ombros de conterrâneos que pelos Palácios passaram, e que infelizmente tiveram uma assessoria imprópria e insensível a estes assuntos, com algumas exceções. Dói saber que gente que aqui nasceu, que aqui cresceu, e que aqui trabalha, tenta descaracterizar nosso querido Cine Teatro Cuiabá. Que tal receber um convite de uma amiga lhe propondo: Vamos ao Cine Teatro Ruth Cardoso?. Parece que Cuiabá virou um grande ninho de tucanos. Precisamos, cuiabanos, tomar cuidado senão nossas cabeças daqui a pouco estarão virando poleiros deles! * EDUARDO POVOAS é cuiabano
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