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ARTIGO
Terça-feira, 14 de Maio de 2013, 20h:31

RODRIGO VARGAS

Nos dê motivos

Sempre que uma autoridade apela ao discurso passional para tratar de um tema técnico, é batata: está em curso uma tentativa de enganar o ouvinte/leitor/contribuinte ou, na melhor das hipóteses, de desviar sua atenção daquilo que realmente está em jogo. Com dinheiro na mão, erguer um viaduto é um desafio técnico. Abrir e instalar 22 quilômetros de trilhos e linhas de alimentação de energia é outro exemplo de ação para qual torcida alguma (a favor ou contra) dará jeito. Ou são tecnicamente viáveis, ou não se tornam realidade. Para a grande maioria da população, que não tem formação específica para avaliar as intervenções que brotaram pela cidade, restam os caminhos da desconfiança por inércia (afinal, no Brasil nada dá certo, não é mesmo?) ou da esperança cega e festiva. Poderia ter sido diferente? Eu tenho a certeza que sim. E a culpa, creio, se deve em grande medida à incapacidade do governo em tratar a preparação da cidade rumo à Copa de 2014 com a transparência e o espírito públicos que o tema merecia. Faltou explicar claramente as decisões tomadas e, mais importante, sustentar estas posições ao longo do tempo com argumentos concretos. Em um determinado momento, por exemplo, era fundamental um tipo de modal de transporte. De repente, tudo se transformou e não se tem notícia, até agora, dos tais estudos definitivos sobre sustentabilidade financeira, tarifa e modelo de exploração. Em outro instante, segurança pública era tão fundamental que, além de novos batalhões e delegacias, Mato Grosso tinha a obrigação de cuidar das fronteiras internacionais com modernos radares móveis. Hoje, não se fala mais nem no prometido aumento do efetivo policial. No final do ano passado, o Diário levantou os valores pagos nas obras das trincheiras da Miguel Sutil e detectou um ritmo exageradamente lento nos pagamentos, especialmente naquelas tocadas pela Ster Engenharia. Problemas? Nada disso, assegurou a Secopa, à ocasião: "Estamos em um estágio em que se gasta mais tempo do que dinheiro", minimizou. Poucos meses depois, lá estava a mesma secretaria anunciando distrato com a empreiteira por "descumprimento reiterado do cronograma". A crise na Santa Bárbara era outro tema minimizado oficialmente até culminar com a saída da construtora da obra mais importante da Copa. E assim vamos, de sopetão em sopetão, sendo convocados a aderir à onda positiva, sem que nada concreto nos seja dado para sustentar este sentimento. Se este mundaréu de desafios técnicos depende agora de torcida a favor, que assim seja, mas que ao menos tenhamos razões claras para isso. Pessimista sem motivo é apenas um chato. Otimista sem motivo é um bobalhão. RODRIGO VARGAS é repórter do DIÁRIO ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16962




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