Traduzir em pouco mais de duas horas uma empreitada gigantesca como a da criação do Parque Indígena do Xingu é tarefa para poucos e bons. O diretor Cao Hamburger, que já havia demonstrado sua capacidade em O Ano em que meus pais saíram de férias, é certamente um destes foras de série. Isso porque seu Xingu, que acaba de sair de cartaz em Cuiabá para dar lugar aos Vingadores da Marvel, não se limita a uma sequência cronológica de cenas inspiradas em fatos reais. O filme vai além, ao abordar as contradições vividas pelos irmãos Villas-Boas ao longo de sua atuação. Dúvidas que ainda hoje persistem entre aqueles que se dispõem a defender a causa indígena no país. Até que ponto interferir? Qual a melhor forma de proteger? Isolar ou integrar? Em determinado momento do filme, a questão é colocada por meio de uma dura discussão entre Orlando e Cláudio. Ambos a serviço de um governo que estimulava a cobiça sobre os territórios indígenas, eles se questionam mutuamente sobre o papel que vinham desempenhando desde que se alistaram para acompanhar a Marcha para o Oeste. O frágil equilíbrio da posição dos Villas-Boas naquele cenário é, a meu ver, a mais bem explorada faceta do filme. Ela se traduz por meio das crises de consciência de Cláudio, da impulsividade de Leonardo e da habilidade política de Orlando. Em tempos de novo acirramento no embate entre desenvolvimentismo e preservação socioambiental, o filme soa atualíssimo em diálogos que parecem reproduzir discussões recentes travadas no Congresso Nacional. Sem o Xingu, as etnias abrigadas por lá há 50 anos provavelmente não teriam sobrevivido. A existência do Xingu, porém, abriu caminho para a ocupação pelos brancos de áreas ancestrais, cuja perda grupos como os Ikpeng lamentam até hoje. Xingu trafega corajosamente no fio desta navalha, evitando retratar os irmãos como heróis de almanaque, unidimensionais, mas sem deixar de revelar o heroísmo real de três sujeitos que, apesar suas falhas e contradições, operaram o impossível. RODRIGO VARGAS é repórter do Diário
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