Quando denúncias e mais denúncias de malversação e desvios de verbas, muitas bilionárias, se tornam rotina na vida pública de todo o país, serve de alento e pausa para reflexão lembrar um pouco do passado, nem tão próximo, nem tão remoto, e quando corrupção não era um termo da moda, batido à exaustão, e os políticos não tinham vergonha de ser honestos no trato do dinheiro público. Tempos bons em que, nos discursos de campanha e nas entrevistas, os políticos não embutiam a promessa de zelar pela moralidade pública, o respeito ao dinheiro dos contribuintes, em suas agendas eleitorais e propostas de governo. Até porque preservar esses valores era o mínimo que se esperava dos candidatos aos mandatos eletivos. Não se cogitava o contrário. Uma época na qual o que poderia ser condenado como um desvio ético de função, quando muito, não ia além da nomeação de apadrinhados, um ou outro compadre, parente ou amigo para pequenos cargos na máquina estatal. Um inocente e barato fisiologismo quando comparado com as grandes mutretas e negociatas ocorridas nos dias de hoje e sempre envolvendo as mais diferentes esferas do poder constituído. É justamente nesse contexto da mais absoluta probidade política e administrativa, virtude rara nos tempos atuais, que se inserem vultos como o cuiabano João Ponce de Arruda. Vale a pena lembrar dele e, ainda que com as limitações impostas pela exigüidade do espaço deste simples artigo, reverenciar a sua memória. Posso estar sendo saudosista, concordo, mas não utópico ou irreal ao falar sobre um homem que, durante sua vasta trajetória política, que foi da década de 30 a 1.967, quando encerrou o seu último mandato, o de deputado federal, mais influenciou os destinos de Mato Grosso, e morreu pobre. Dependendo, para sobreviver, de uma modesta pensão concedida pelo governo mato-grossense, muitos anos depois e quando já estava afastado da vida pública. Se não me falha a memória, foi o então governador Júlio Campos, décadas após, quem concedeu essa pensão, no que, através desse ato nobre e humanitário, Júlio se penitenciou em parte dos muitos erros cometidos em sua polêmica gestão. Velho e enfermo, por não ter sido um alpinista, como muitos de agora, na busca da ascensão econômica e financeira, João Ponce não fez dos cargos escada para acumular múltiplas e gordas aposentadorias ou patrimônio invejável que lhe permitissem um fim de vida menos atribulado. Morreu pobre, é verdade, mas, imagino, com a alma leve e a consciência em paz. Partiu como um passarinho... João Ponce de Arruda, sem dúvida, foi um exemplo dignificante de idoneidade no exercício dos vários e importantes cargos que exerceu, de prefeito de Cuiabá a governador, passando por diversos mandatos de deputado estadual e federal, além de haver ocupado pastas estratégicas, a exemplo da secretaria geral do governo de Mato Grosso que administrou de 1937 a 45, no período getulista denominado de Estado Novo. Destaco o legado de homem probo e deixo de citar as obras físicas e estruturais empreendidas por João Ponce, que foi pioneiro na implantação da primeira política de integração do imenso Mato Grosso de antes da divisão, levando, quando governador, mesmo dadas as limitações de recursos da época, investimentos fundamentais para diminuir o isolamento entre a Capital e regiões distantes, como a parte Sul de Mato Grosso onde hoje é o território do Mato Grosso do Sul. Fica o seu exemplo. MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única. E-mail:
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